Novelas De Jerusalém

by Sch. I. Agnon

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Novelas De Jerusalém

Sch. I. Agnon
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A leitura déste volume é uma experiência plurivalente. O leitor não sai incólume dela. Este fato caracteriza toda grande obra de arte: a obra de arte altera.
A alteração plurivalente operada no leitor por êste volume será o assunto das considerações seguintes. Será ensaiado um diálogo com Agnon, e será aceite o seu desafio pelo qual Agnon se estabelece como o “nosso outro que nos altera”. É óbvio: o diálogo não se dará em igualdade de têrmos. Agnon falou, e nós respondemos. O diálogo se dará portanto no terreno escolhido por êle.
E nesse terreno éle é mestre. O diálogo será entre mestre e discípulo, portanto num clima de humildade, de reverência, mas também de curiosidade e de prontidão para aceitar e rejeitar ensinamentos. Creio que o diálogo entre mestre e discípulo é o próprio veículo de tôda tradição (inclusive da judaica), e seu clima de humildade crítica deve ser portanto caro ao coração de Agnon. Assim espero conservar fidelidade a êste volume nas considerações seguintes.
O judaísmo que Agnon articula implícita ou explicitamente neste volume é o chamado judaísmo da “ortodoxia”. Mas creio que éste térmo é totalmente inadequado. “Ortodoxia” (opinião correta) é um térmo cristão e designa a cristandade grega. O térmo mais adequado para designar o judaísmo de Agnon seria a meu ver “ortopraxis” (comportamento correto). Considerem, por exemplo, o incrível discurso que Agnon pronunciou ao aceitar o Prêmio Nobel. Na Suécia superdesenvolvida dos Bergman e dos suicídios, do tédio de uma aristocracia e de um proletariado aburguesados, da vacuidade existencial de uma sociedade afluente, Agnon comporta-se corretamente.
Pronuncia as bênçãos exatamente corretas, e com certeza o faz com a entonação da voz e com os movimentos do corpo exatamente corretos. A incongruência brutal e chocante entre o comportamento correto de Agnon e sua circunstância inteiramente incorreta é, creio, o núcleo da problemática que Agnon nos lança. Este é, a meu ver, o seu ensinamento: comportar-se corretamente num ambiente inteiramente inadequado a éste comportamento.
Agnon é um engajado no comportamento correto, a despeito do ambiente, e com despeito ao ambiente. Um judeu “ortoprático” quand-même, um judeu camusiano. Um judeu deliberado. Escolheu o judaísmo. E lança-de seu judaísmo contra uma circunstância totalmente absurda, insípida e incolor, para dar-lhe valor e sentido. Esta a tese que procurarei defender no presente trabalho.
Por culpa do malvado Tito nasceu Agnon (não em Jerusalém), mas na Galícia do império dos Habsburgos. Coloca as sim a sua biografia numa visão correta da história dos últimos dois mil anos. Mas é óbvio que Agnon sabe que a interpretação correta não é a única possível. Conhece, por exemplo, a interpretação cristã, e a nazista, e a marxista, e inúmeras outras.
Não é como aquelas galicianos, para os quais a culpa de Tito é a única explicação possível do seu “destéreo”. Para os galicianos autênticos (dos quais tratam tantos contos neste volume), existe uma única realidade, com uma única verdade e uma única escala de valores. Tôda pessoa sensata sabe que Tito é culpado da destruição do Templo e do destéreo do povo eleito. Como tôda pessoa sensata sabe que o Messias virá, a fim de pôr o mundo na sua devida ordem.
Quem o nega ou é ignorante, ou louco, ou simplesmente malvado. Mas Agnon não é sensato. Mas como não é ignorante, nem louco, nem malvado, força-se deliberadamente para ser sensato. Escolhe a realidade, a verdade e os valores dos galicianos como se fôssem os únicos possíveis.
Recusa as demais realidades como se fôssem outras tantas ilusões perigosas. Recusa as demais verdades como se fôssem mentiras. Recusa os demais valores como se fôssem pecados.
Necessariamente: porque admitir realidades múltiplas seria admitir o absurdo do mundo. Admitir verdades múltiplas seria admitir o ceticismo. Admitir uma variedade de escalas de valores seria admitir que tudo é permitido. Agnon não o admite. Não admite que o mundo carece de fundamento, que todo juízo é vão, e que é gratuito todo ato. Para não precisar admiti-lo, escolhe ser judeu. O seu judaísmo passou pelo crivo da dúvida radical, e é uma resposta a ela. Agnon não é como os seus galicianos.
O problema que Agnon propõe é o da diferença entre fé e engajamento. Os galicianos de Agnon têm fé no judaísmo, Agnon engaja-se nêle. Qual é essa diferença? Óbviamente tem a ver com o conceito da ingenuidade. A fé é ingênua, o engajamento procura, desesperadamente, sê-lo. Já que o problema nos toca de perto a todos, devemos tentar solvê-lo.
Comparamos pois Agnon com sua Tili do conto Tehila. O Agnon a ser comparado com ela é aquêle após o banquete. Tili, tal qual Agnon, nasceu no ambiente do judaísmo galiciano. Aceita o ambiente, e nunca lhe ocorre sequer a idéia de não aceitá-lo. O ambiente (os outros — judeus e não-judeus — e as coisas da cultura e da natureza que a cercam) tem para ela sentido e representa valores. A vida neste ambiente tem significado.
E Tili sabe distinguir entre verdade e falsidade, e entre valores positivos e negativos. Conhecer, para ela, é distinguir entre o verdadeiro e o falso, e agir é fazer o Bem, ou fazer com que o Mal desapareça. Tili sabe a verdade, mas nem sempre a admite. Sabe o Bem, mas nem sempre o pratica. Este é o seu problema. Não sabe sempre se tem razão, mas sabe sempre que “ter razão” é possível e desejável. A dúvida de Tili (uma dúvida atroz) é uma dúvida que diz respeito à validez dos seus pensamentos e atos. Põe em questão seus pensamentos e atos. Mas não põe em questão a validez mesma, que é tomada por “objetiva”. Deus julgará objetivamente seus pensamentos e atos. A dúvida de Tili, por terrível que seja, não é radical ao ponto de atingir o fundamento. Tili ignora que o próprio fundamento pode ser duvidado. Não descobre, por isto, que o seu mundo, com seu significado e seus valores, é um “modêlo”. E é assim que, creio, podemos definir a fé: é uma dúvida que não atinge a estrutura do seu próprio modêlo.
Agnon descobriu que o judaísmo galiciano é um modelo. Esta descoberta catastrófica (que é a perda da fé) faz com que o homem caia fora do seu modelo. O homem se perdeu. Doravante passará sua vida procurando encontrar-se. A sensação da perdição (que é a perda do senso da realidade, do sentido e do valor) pervadirá doravante a sua vida.
O homem agora contempla o seu modelo de fora. E vê, ao lado do seu, outros modelos. Uma multiplicidade de modelos a perder-se à vista. Da sua posição desesperadamente distanciada pode êle agora comparar-lhes as estruturas. Pode construir meta-modelos que abranjam vários modelos. E pode construir meta-modelos dos meta-modelos.
Assim, numa regressão ao infinito, pode subir a escada cujos degraus apontam o Nada. Uma vertigem metafísica se apodera do homem. O homem treme de um frio nefasto. Nas palavras de Nietzsche, “desde que matamos Deus todo dia está ficando mais frio”. Nesta loucura do ensimesmamento radical o próprio “simesmo” é descoberto como abismo sem fundo. É por procurar-se que o homem se perde sempre mais nesse abismo.
Nas palavras de Kafka, o homem passa a sua vida combatendo o seu desejo de acabar com ela.
Mas é possível inverter essa descida (ou ascensão) nefasta. É possível interromper o processo do ensimesmamento. É possível lançar-se, deliberadamente, com os dentes cerrados, para dentro de um dos modelos tão loucamente “superados”. Escolher um dentre êles e empenhar-se no modelo assim escolhido. Já que o homem não pode encontrar-se a si mesmo dentro de si mesmo (dada a sua falta de fundamento), pode encontrar-se a identificar-se com um modelo deliberadamente escolhido.
Todos os modelos são equivalentes. São equivalentes, já que coincidem em determinados meta-modelos. O judaísmo, o marxismo, o catolicismo coincidem em determinados meta-modelos, e se não coincidem, posso construir meta-modelos de meta-modelos para fazê-los coincidirem.
Não importa portanto qual o modelo que escolho para engajar-me nele. E já que não importa, escolhe Agnon o mesmo modelo que aban donou ao ter-se perdido: o judaísmo. Esta identidade do módelo abandonado com o módelo escolhido torna tão ambivalente a sua decisão, e a sua obra. Se Agnon tivesse escolhido o catolicismo ou o marxismo, a crítica da sua obra teria sido mais fácil. Mas escolheu o judaísmo. A gratuidade da decisão permeia a sua obra, mas igualmente a permeia um judaísmo autêntico, resíduo da fé perdida e “superada”. Esta é pois, a meu ver, a definição do engajamento: a tentativa desesperada de forçar uma fé e uma ingenuidade definitivamente perdidas. Por isto fé e engajamento, embora tão semelhantes em suas manifestações externas, são tão distintas em seu clima: a fé se dá contra um fundo indubitável, o engajamento contra um fundo absurdo.
Creio que isto explica a sensação que nos invade na leitura de Agnon. Mas não a explica tôoda. Para aprofundarmos a nossa visão, devemos considerar a estrutura do judaísmo como módelo, e mais especificamente do judaísmo “ortodoxo” (aquêle que proponho chamar de “ortoprático” para captar-lhe melhor o funcionamento). Uma palavra caracteriza êsse módelo: o rito. A vida judaica é uma vida ritual, tomada como um todo, tomada em todos os seus detalhes. Procuremos iluminar um pouco o conceito do rito. É ele todo movimento que se dá em espaço sacro, e sacraliza tudo o que movimenta.
A vida judaica, por ritual, é uma vida sacra, e sacraliza tudo o que toca. Mas o térmo “sacro” é ambíguo e necessita de esclarecimento. Para os gregos, por exemplo, o térmo tem significado inteiramente diferente daquele que tem para os judeus. O sacro, para os judeus, é o fundamento sobrenatural e extranatural que fundamenta a natureza, mas também a pervade e nela irrompe. A rigor, sacro é Deus e sacro é o sábado, essa interrupção do tempo histórico e ruptura na natureza. O rito judeu se dá no espaço Divino e sabático do sobrenatural, e é neste sentido que sacraliza.
Todo ato individual judaico, e a vida judaica tôoda, são sacrifícios que superam a natureza. O rito judaico sacrifica a natureza, e é neste sentido que a sacraliza. É Êste o sentido da sentença fundamental que manda amar Deus “sobre” tôdas as coisas. A vida como sacrifício, como um “fazer sacro”, como um “fazer portanto, isto é judaísmo. É uma “ortopraxis”.
Creio que isto distingue o judaísmo de muitos outros modelos. Salienta o fazer e reprime o saber, salienta o ato e reprime o pensamento. Há um antiintelectualismo latente no judaísmo, uma tendência latente contra a filosofia. A proibição de fazer imagens não seria, no fundo, uma proibição de fazer idéias? E isto explica, a meu ver, a curiosa praticidade dos comentários sobre comentários que perfazem a literatura da tradição judia. Digo “curiosa praticidade”, porque é uma praticidade em grande parte inteiramente alienada do ambiente sobre o qual a ação deve dar-se. Uma praticidade pouco prática portanto. Um pensamento terre-à-terre, onde a terra não é desta Terra. (Como o problema mencionado por Ag-non, se devo dizer a bênção sobre uma viagem no início, no transcurso, ou no fim da viagem.) Em uma palavra: a praticidade judaica é a praticidade do rito.
Não duvido que Agnon se aproveita, deliberadamente, desta estrutura do judaísmo. A aversão judaica contra tôda teoria concorda excelentemente com a visão daquele que, tendo vivenciado a ociosidade de tôda “explicação”, abandonou a tentativa de teoretizar o absurdo. E a praticidade antiprácta do rito concorda excelentemente com a visão daquele que, tendo vivenciado a gratuidade de todo ato, escolhe agir a despeito de tudo. O judaísmo é como que o modêlo ideal para quem não acredita em modelos. Há uma ironia nesta afirmativa, uma ironia talvez tipicamente judaica, uma ironia autodestrutiva. E ela é um dos aromas da obra de Agnon. Por exemplo, o leitor sente o sorriso sardônico tôda vez que aparece a fórmula ritual “de abençoada memória” nos textos de Agnon. Mas o sorriso é muito leve. É como que um piscar conspiratório em direção do leitor, imediatamente reprimido. Porque o engajamento, para ser engajamento, deve ser de corpo e alma, embora permita pequenas aberturas em direção do horizonte absurdo, contra o qual a decisão para o engajamento se deu. E creio que isto explica outro aspecto da sensação que se apodera de nós na leitura déste volume.
E há mais um elemento a ser considerado, e êste tem a ver com o conceito da fidelidade. O engajamento de Agnon em prol do rito judaico é um assumir consciente e deliberado de um destino que caracteriza um grupo (um “povo”), em cujo meio Agnon foi lançado ao nascer, portanto absurdamente. É portanto um assumir-se. Um guardar fidelidade ao próprio destino, que é o destino do “povo”, um amor fati nietzschiano. Mas já que é um assumir-se deliberado, há néle também uma pontinha de ironia. Como naquela história tipicamente judia, pela qual orgulho-me de ser judeu, porque sem orgulho também seria judeu. É que fidelidade e fé (fides, emunda) são quase sinônimos, e se perdi uma, não poderei jamais reconquistar autênticamente a outra. Não posso assumir um destino, porque, se pudesse, não seria destino. Neste ponto, nas declarações repetidas de Agnon de fidelidade ao povo e a Jerusalém, aparece mais claramente a trágica ambivalência da posição por ele assumida.
O problema da fidelidade ao judaísmo provoca, no leitor, uma reação talvez não inteiramente pretendida por Agnon. É a seguinte: o judaísmo é um modelo, e Agnon o prova. Todo modélo projeta um mundo. Neste sentido é “universal” todo modelo. Mas existe um outro sentido da palavra “universal”, que é este: um modelo é universal quando aberto para todos. Não creio (e Agnon o prova) que o judaísmo seja um modelo universal neste segundo sentido.
Em outras palavras: o judaísmo é universal, porque explica tudo, mas não é universal, porque nem todos podem ser judeus. Nisto distingue-se de modelos como o são o freudismo, o marxismo ou o catolicismo. Há um momento paroquial, restritivo, segregacional no judaísmo, o momento nacionalista. Por isto é o problema da fidelidade de ao judaísmo diferente ao problema da fidelidade a um modelo aberto.
A fidelidade ao judaísmo implica uma decisão para a segregação e para o separatismo. A consequência disto é que Agnon tem duas classes de leitores: judeus e não-judeus. Isto não se dá com escritores católicos ou marxistas. Todos os seus leitores são católicos (ou marxistas) potencialmente, e o escritor se esforça por efetivá-los. Dado o separatismo do modelo judeu, Agnon pode efetivar apenas os seus leitores judeus. O diálogo que Agnon estabelece com seus leitores é pois ambivalente. Procurarei considerar primeiro a sua valência para leitores não-judeus.
O engajamento de Agnon num modêlo inacessível para mim (não-judeu) é uma demonstração clara de gratuidade de todo engajamento. Agnon escolheu o judaísmo como que para provar que não importa qual a decisão, desde que seja tomada. O mundo passa a ter sentido e a ter valor, desde que eu tome uma decisão qualquer e viva de acôrdão com ela.
Se Agnon tivesse escolhido o marxismo, a gratuidade da decisão não teria sido tão óbvia aos olhos do leitor não-judeu. O judaísmo (que eu não posso escolher) dá sentido e dá valor ao mundo, como dará sentido e valor qualquer modêlo aberto à minha escolha. O convite que Agnon me estende é êste: escolhe e vive de acôrdão com sua decisão tomada. Não te entregues ao absurdo.
Mas nisto o convite de Agnon não se esgota. Inclui um apêlo para a humildade. Diz isto: Descobri que o mundo dentro do qual fui lançado ao nascer é modelado. Perdi a fé nele. Mas isto não é motivo para orgulhar-me. Pelo contrário, é motivo para envergonhar-me. Excedi-me na duvida, e agora estou pagando pelo meu excesso.
O pagamento que devo fazer é redobrar os meus esforços para reintegrar-me no meu mundo perdido. Isto significa “identificar-me”. Perder o falso orgulho da superação, e voltar até as raízes. A volta até as raízes é a radicalidade que Agnon recomenda. Neste sentido a fidelidade de Agnon a Jerusalém diz respeito a mim, não-judeu. É a volta até as raízes. Até as minhas raízes.
Não leio Agnon como um escritor folclórico que descreve os costumes exóticos de um grupo estranho. (Agnon se insurge, e com razão, contra uma interpretação folclórica do judaísmo.) Leio Agnon como um mestre que ensina a radicalidade da identificação na humildade. É assim que eu, leitor não-judeu, posso estabelecer diálogo com Agnon.
Resumindo, Agnon demonstra ao leitor não-judeu os dois aspectos fundamentais da sua filosofia: todo modelo é equivalente, e já que é assim, procura reintegrar-te no teu modelo original, no qual ancoram as tuas raízes. Procura identificar-te. Se agires assim, serás digno aos teus próprios olhos, e aos olhos dos outros. O leitor não-judeu pode concordar ou não com êste convite.
Mas não pode ignorá-lo depois da leitura dêste volume. Agnon diz respeito, intimamente e vivencialmente, ao leitor não-judeu.
Para o leitor judeu a valência do argumento com Agnon é outra. (Imagino que no original hebraico o seu impacto é muito maior que na tradução português. para este leitor, Agnon diz isto: Eu sou velho. Ainda me lembro do tempo, no qual o mundo tinha valor e sentido. (Do tempo, no qual “a Torá era estudada pelo amor a ela”). Lembro-me da cidade galiciana, dêsse tecido sacral e ritual denso, entre cujas malhas não penetrava a vivência do absurdo. E lembro-me como pairava, por cima da cidade galiciana, a Outra, a Jerusalém transcendente. Deixei de me integrar na primeira, e perdi a fé na segunda. Isto porque subi até a Jerusalém terrestre, e porque vagueei pelo mundo profano, raso e chato. É provável que tu, leitor, estejas ou na Jerusalém terrestre, ou no mundo profano. Segue-me, pois eu decidi voltar para casa. A volta não é fácil. A cidade galiciana sumiu.
A Jerusalém transcendente está encoberta pela Jerusalém terrestre. E, cá entre nós, se existisse ainda a cidade galiciana, não nos integraria. E a Jerusalém transcendente era um sonho do qual acordamos. A volta não é fácil. Mas é possível. Porque não é volta, mas avanço.
Construamos o tecido da sacralidade, do rito e do sacrifício, em outro nível. Como negação do mundo profano, e como sacralização da Jerusalém terrestre. Façamos deliberadamente o que outrora fazíamos, nós e os nossos antepassados, espontâneamente. Fiemos e emendemos deliberadamente o fio da tradição cortado e rasgado (não tanto pelas catástrofes recentes), mas pela dúvida niilista que caracteriza o século vinte.
Isto é possível (embora difícil), mas é também necessário, a menos que nos deixemos cair no abismo do absurdo. Redescubramos, deliberadamente, Einam, e se necessário inventemo-lo a fim de poder descobri-lo.
Sem dúvida, há em tudo isto, para o leitor judeu, um elemento de saudosismo. E há uma pontinha (perigosa, a meu ver) de nacionalismo. Mas as premissas agnonianas são dificilmente negáveis. A sua diagnose da nossa situação é acertada. So mos estrangeiros no sentido camusiano. Somos estrangeiros como existências lançadas em ambiente absurdo. Mas somos estrangeiros também como judeus exilados da fé, como ex-judeus. Somos o protótipo do estrangeiro. É por isto que vivemos em mundo tão estranho, tão kafkiano. Algo está profundamente desafinado ("da stimmt etwas nicht"), para recorrer-mos a um térmo heideggeriano. E, sem dúvida, Agnon tem razão ao demonstrar-nos isto.
Terá ele razão também com a terapia proposta? E, supondo que tenha razão, será ela honestamente viável? A pergunta que lanço é esta: A dificuldade da volta (ou do avanço) rumo a um judaísmo “ortopático” será apenas a dificuldade do “fazer” (negável), ou não será ainda mais a dificuldade do sacrifício do intelecto? Esta é a inquietação, o abalo, a alteração, que o leitor judeu sofre na leitura déste volume.
O convite para um sionismo transcendental deliberado não pode ser aceite ou recusado com a mesma facilidade com a qual aceitamos ou recusamos o convite para o sionismo imanente. Toca o nosso íntimo como existências, e não apenas como judeus. Ataca a nossa integralidade, e não apenas a nossa condição judia.
Apela, em outras palavras, para a nossa religiosidade, ou para aquele lugar vazio reservado à religiosidade. Agnon diz respeito, intimamente e vivencialmente, ao leitor judeu. Não sei se Agnon se dá conta, plenamente, do duplo diálogo que estabelece: com não-judeus e com judeus. Mas se se der plenamente conta da sua duplicidade, a tragédia da sua posição ambivalente é quase insuportável.
Este é pois, a meu ver, o ensinamento de Agnon: O mundo é absurdo, não tem sentido, e tudo néle é permitido. E tôda tentativa de encobrir o absurdo e procurar dar sentido e valor ao mundo é equivalente (isto é, isenta de valor e sentido). Mas esta descoberta é intolerável. É intolerável, porque, a despeito de tudo, existem modelos. Por exemplo, o meu modelo. O meu modelo é, por acaso, o judaísmo. E, por acaso (acaso feliz), o judaísmo é um modelo que, ironicamente, nega todos os modelos (inclusive a si próprio), por ser um modelo cuja estrutura é o ritual do sacrifício, portanto o absurdo. Pois eu, Agnon, me engajo néle. Assim conservo fidelidade a mim mesmo e aos meus, e, simultâneamente, posso salientar o absurdo de tudo. Por exemplo, posso, ritualmente, pronunciar a bênção sobre o rei da Suécia ou sobre um pão inteiro num restaurante kafkiano. Respondi ao absurdo com o absurdo. E, num cantinho do meu Ser, conservo a esperança, restinho de fé perdida, que, afinal, o absurdo é Aquêle inteiramente outro que se manifestou, outrora, no Monte Sinai, ao nosso Mestre.
Não resta dúvida que a leitura de um ensinamento assim abala. A digestão desta mensagem exige tempo. Surgem várias perguntas.
Por exemplo: será Agnon uma resposta a Camus, ou será ele um Camus menos radicalizado? Será Agnon um judaísmo atualizado, um judaísmo pós-Wittgenstein, ou será um deliberado anacronismo? Serão os contos de Agnon ponteiros do futuro, ou lápide nas nossas supulturas?
Ido ou Einam? As perguntas (estas e inúmeras outras) ficam suspensas. Mas uma coisa é certa: com éste volume assume a nossa luta (a luta de cada um de nós) pela conquista da identidade, de um senso de realidade e de valor, uma dimensão nova. Ficamos alterados.
E não é necessário alterar-se para identificar-se?
VILÉM FLUSSER

Agnon — Uma Parábola Judaica ^{1}

Nossos sábios, de abençoada memória, afirmaram que não devemos desfrutar de qualquer prazer neste mundo sem antes recitar uma bênção. Se comemos uma comida, ou bebemos uma bebida, devemos pronunciar uma bênção sobre elas, antes e depois. Se aspiramos o cheiro do capim formoso, a fragrância das especiarias, o aroma dos belos frutos, recitamos uma bênção sobre o prazer. Aplica-se a mesma coisa aos prazeres da visão: Quando vemos o sol no Grande Ciclo do Zodíaco no mês de Nisan, ou as árvores que rebentam em botão na primavera, ou algumas árvores vigorosas e belas, pronunciamos uma bênção. E a mesma coisa se aplica aos prazeres do ouvido.
Foi através de vós, caros senhores, que chegou até mim uma das bênçãos concernentes à audição. Aconteceu quando o Encarregado de Negócios Sueco veio e trouxe-me a notícia de que a Academia Sueca me conferira o Prêmio Nobel. Recitei, então, por inteiro a bênção que é prescrita para aquêle que ouve boas notícias para si mesmo ou para outros: “Bendito seja Éle que é bom e faz o bem”. “Bem”, nisto que o bom Deus o colocou nos corações dos sábios da ilustre Academia para outorgar éste grande e estimado Prêmio a um autor que escreve na Língua Sagrada; “Que faz o bem”, naquilo que Éle me favoreceu fazendo que vós me escolhêsseis. E agora que vim aqui, recitarei mais uma bênção, como é prescrita àquele que avista um monarca: “Bendito és Tu, ó Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que deste de Tua Glória a um rei de carne e osso”. Sobre vós, também, distintos sábios da Academia, digo a bênção prescrita: “Bendito seja Aquêle que deu de Sua sabedoria a pessoas de carne e osso”.
Diz o Talmud (Sanhedrim 23a): “Em Jerusalém, os homens de juízo não se sentaram para comer em companhia até que souberam quem seriam seus companheiros”; assim, contar-vos-ei agora quem sou eu, a quem concordastes em ter à vossa mesa.
Como resultado da catástrofe histórica na qual o Tito de Roma destruiu Jerusalém e Israel foi exilado de sua terra, nasci em uma das cidades da Diáspora.
Mas sempre me considerei a mim mesmo como alguém nascido em Jerusalém. Em sonho, numa visão noturna, vi-me de pé com meus irmãos levitas no Sagrado Templo, cantando com eles os salmos de Davi, Rei de Israel, melodias tais que nenhum ouvido ouviu desde o dia em que nossa cidade foi destruída e seu povo levado ao exílio. Suspeito que os anjos encarregados do Relicário da Música, temerosos de que eu cantasse em vigília o que eu havia cantado em sonho, fizeram-me esquecer de dia o que eu cantara à noite; pois, se meus irmãos, os filhos de meu povo, tivessem ouvido, seriam incapazes de suportar sua mágoa pela felicidade que perderam.
A fim de consolar-me de me haverem impedido de cantar com minha boca, eles me deram capacidade de escrever canções.
Pertenço à Tribo de Levi; meus antepassados e eu somos da estirpe dos ministros que estiveram no Templo, e há uma tradição na família de meu pai de que somos da linhagem do Profeta Samuel, cujo nome eu uso.
Tinha cinco anos quando escrevi minha primeira canção. Foi de saudade de meu pai que a escrevi. Aconteceu que meu pai, de abençoada memória, foi viajar a negócios. Fui dominado pela saudade e fiz uma canção. Depois disso, fiz muitas canções, mas nada restou delas.
A casa de meu pai, onde deixei um quarto cheio de escritos, foi queimada na Primeira Guerra Mundial, e tudo o que eu lá deixara queimou-se com ela. Os jovens artesãos, alfaiates e sapateiros que costumavam cantar minhas canções em seu trabalho, foram mortos na Primeira Guerra Mundial — e daqueles que não foram mortos na Guerra, uns foram enterrados vivos com suas irmãs nas sepulturas que cavaram para si mesmos por ordem do inimigo, e muitos foram queimados nos crematórios de Auschwitz juntamente com suas irmãs, que haviam enfeitado nossa cidade com sua beleza e haviam cantado minhas canções com suas vozes melodiosas.
O destino dos cantores que, como minhas canções, sumiram nas chamas foi igualmente o destino dos livros que escrevi mais tarde. Todos eles subiram nas chamas ao Céu, juntos, num incêndio que irrompeu uma noite em minha casa em Bad Homburg, enquanto eu estava recolhido a um hospital. Entre os livros que se queimaram figurava um grande romance de umas 700 páginas, cuja primeira parte o editor anunciara para breve. Junto com éste romance, chamado Vida Eterna, queimou-se tudo o que escrevera desde o dia em que saí da Terra de Israel para o exílio, inclusive um livro que eu compusera juntamente com Martin Buber, além de quatrocentos livros hebraicos, muitos dos quais chegaram até mim vindos de meus antepassados e outros que eu havia comprado com o dinheiro tirado de meu pão quotidiano.
Eu disse: “desde o dia que saí da Terra de Israel para o exílio”, mas ainda não relatei que eu residira na Terra de Israel. Falarei disso agora.
Com a idade de dezenove anos e meio, subi à Terra de Israel para lavrar seu solo e viver do trabalho de minhas mãos. Como não encontrei trabalho, procurei um ganha-pão em outra coisa. Fui designado Secretário da Sociedade Hoveei Zion ao quadrado e Secretário do Conselho Palestinense — que era uma espécie de parlamento em embrião — e fui também o primeiro-secretário da Côrte Voluntária da Magistratura Judaica. Através desses serviços, tive o privilégio de travar conhecimento com cada pessoa judia, e aqueles que não vim a conhecer através desses serviços cheguei a conhecer pelo amor e por um desejo de conhecer meus irmãos, os membros de meu povo. É quase certo que, naqueles anos, não havia um homem, uma mulher ou uma criança na Terra de Israel que eu não conhecesse.
Depois de se terem queimado tôdas as minhas posses, Deus deu-me a sabedoria de retornar a Jerusalém. Retornei a Jerusalém, e foi por virtude de Jerusalém que escrevi tudo o que Deus colocou em meu coração e em minha pena. Escrevi também um livro sobre a Revelação da Torá, e um livro sobre os Dias Terríveis, e um livro sobre os livros de Israel que foram escritos desde o dia em que a Torá foi dada a Israel.
Desde meu retorno à Terra de Israel, deixei-a duas vezes: uma vez, em relação com a impressão de meus livros pelo fa lecido Zalman Schocken, e uma vez viajei à Suécia e Noruega. Seus grandes poetas implantaram tanto amor e admiração por seus países em meu coração que decidi ir e vê-los. Agora vim uma terceira vez, para receber vossa bênção, sábios da Academia.
Durante o tempo em que residi em Jerusalém, escrevi histórias grandes e pequenas. Algumas foram editadas, muitas ainda se acham em manuscrito.
Já contei como vieram minhas canções da saudade de meu pai. Os começos de meus estudos também vieram a mim de meu pai, bem como do Juiz Rabínico de nossa cidade. Mas foram precedidos por três tutões sob os quais estudei, um após o outro, desde a idade de três anos e meio até os oito anos e meio.
Quem foram meus mentores em poesia e literatura? Isso depende da opinião. Uns vêem em meus livros influências de autores cujos nomes, em minha ignorância, nunca ouvi, enquanto outros enxergam as influências de poetas cujos nomes ouvi mas: 3
Primeiro de tudo, as Sagradas Escrituras, das quais aprendi a combinar as letras. Depois, a Mischná e o Talmud e os Midraschim e o comentário de Raschi sobre a Torá. Depois dentes vêm os Poskim — os últimos explicadores da Lei Talmúdica — e nossos sagrados poetas e sábios medievais, conduzidos por nosso Mestre Rabi Moses, filho de Maimon, conhecido como Maimônides, de abençoada memória.
Quando comecei a combinar outras letras além das hebraicas, li cada livro em alemão que cruzou meu caminho, e desses recebi com certeza de acordo com a natureza de minha alma. Como o tempo é curto, não vou compilar uma bibliografia ou mencionar alguns nomes. Por que, então, relaciono os livros judaicos? Porque foram eles que me deram o alicerce. E meu coração me diz que foram eles que recomendaram que eu fosse honrado com o Prêmio Nobel.
Existe outro tipo de influência, que recebi de todo homem, de tôda mulher, de tôda criança que encontrei ao longo de meu caminho, tanto judeus como não-judeus. A conversa do povo e as estórias que contam foram gravadas em meu coração, e algumas delas subiram à minha pena. Aconteceu o mesmo com os espetáculos da natureza. O Mar Morto, que eu costumava ver tôda manhã, à aurora, do teto de minha casa, o Riacho Arnon onde costumava banhar-me, as noites que eu costumava passar com homens devotos e piedosos à meia-noite, ao lado do Muro das Lamentações — noites que me deram olhos para ver a terra do Santo Abençoado, que Ele nos deu, e a cidade onde Ele estabeleceu Seu Nome.
A fim de não negligenciar nenhuma criatura, devo mencionar também os animais domésticos, as feras e os pássaros dos quais aprendi. Jó disse muito tempo atrás (35:11): “Quem nos ensina mais do que os animais da terra, e nos faz mais sábios do que as aves dos céus?” “Alguma coisa do que aprendi com êles, escrevi em meus livros, mas receio que não tenha aprendido tanto quanto devia, pois quando ouço o ladrido de um cão, ou o gorjeio de uma ave, ou o cantar de um galo, não sei se me estão agradecendo de tudo o que contei deles ou se me estão pedindo explicações.
Antes de concluir minhas observações, direi uma coisa mais. Se louvei a mim mesmo em demasia, foi por vossa causa que o fiz, a fim de tranquilizar-vos por terdes lançado os olhos sobre mim. Quanto a mim mesmo, sou muito pequeno realmente aos meus próprios olhos.
Nunca em tôda a minha vida esqueci o Salmo de Davi: “Senhor, o meu coração não se elevou, nem meus olhos se levantaram; não me exercito em grandes assuntos, nem em coisas muito elevadas para mim”. E se tenho orgulho de algo, é de ter obtido o privilégio de viver na terra que Deus prometeu a nossos pais que nos daria, como está escrito: “E habitarão na terra que dei ao meu servo Jacó, na qual habitaram vossos pais; e habitarão nela, êles e seus filhos, e os filhos de seus filhos, para sempre”.
Antes de concluir, direí uma breve oração: Aquêle que dá sabedoria aos sábios e salvação aos reis, possa Ele aumentar vossa sabedoria além da medida e exaltar vosso Soberano. Em seus dias e nos nossos possa Judá ser redimido e Israel habitar em segurança. Possa vir um redentor a São, possa a terra encher-se de conhecimento e alegria eterna para todos os que nela habitam e possam eles gozar de muita paz. Seja tudo isso a vontade de Deus. Amém.
No primeiro capítulo déste livro, tentei provar que “não se deve interpretar Agnon como um escritor religioso em térmos de qualquer ortodoxia particular”. Porém mais do que isso: repetidas vezes insisti no érro daqueles que vêem prova de um “retorno à fonte” no apêgo de Agnon à vida judaica tradicional, em sua escolha de temas épicos tirados da vida religiosa. Sua produção literária, vista como um todo, nunca nos levaria ao érro de pensar que nosso próprio mundo podia assemelhar-se àquela existência judaica descrita às vezes com nostalgia em suas histórias.
Tal nostalgia podia tomar forma somente como um produto do conhecimento claro e final de que esta existência harmoniosa, equilibrada, de valores morais inequívocos passou, irrevogavelmente. E desde que, em meu livro Moderna Literatura Hebraica — Continuidade ou Revolução, se fizeram claras distinções entre literatura religiosa e literatura secular, não restou dúvida de que considero Agnon um escritor secular.
Não obstante, amiúde se levantaram algumas vozes para reabrir a questão. Nos círculos religiosos, em particular, há um forte desejo de descobrir um grupo religioso entre os escritores modernos, com o resultado de que existe muita conversa acerca de poetas religiosos e autores religiosos. Esta questão me interessa somente na medida em que importa tentar compreender a natureza de qualquer obra literária. Não se deve confundi-la com qualquer discussão do modo de vida de qualquer escritor.
Os escritos de Agnon são o único objeto de minha discussão. Eles não são literatura liturgica; as pretensões de simples fé não é que determinam o seu caráter. O escopo espiritual e artístico das histórias de Agnon não é idêntico à ordem de possibilidades de pensamento e experiência latentes no Judaísmo ortodoxo. Uma preferência por temas e ingredientes épicos tirados de uma realidade particular, não se deve tomá-la como sujeição a essa realidade.
O artista não se identifica com os tipos que cria; a fé de Menasche Haim, de Reb Iudel, de Reb Schlomo Bach, de Tehila e de Rebe Haim não é a fé de Agnon. Ainda mais, mesmo quando retrata tipos extremamente religiosos como Reb Iudel, Hanania e Menasche Haim, podemos perceber brechas na inteireza de sua fé. Às vezes, a fonte de brecha é a revolta espiritual do próprio herói, como no caso de Menasche Haim; às vezes, é a própria ironia do artista que destrói a ilusão de que éle compartilha as opiniões de seus tipos. Essa ironia auto-exclusiva é conspícua em quase todos os capítulos de Haknessat Kalá (O Dote da Noiva), e emerge ao fim da fábula religiosa No Coração dos Mares (Bilevav lamim). É a realidade atual que separa Agnon de “nossos iranãos na fé”, e cria a distância artística necessária para o crouista de Haknessat Kalá. Pois somente quem não compartilha a fé de Reb Iudel é capaz de imortalizá-lo e ao seu período, que foi o que Agnon logrou realizar. A perspectiva épica a partir da qual se pode descrever as vidas de judeus piedosos, hassidim e “nossos irmãos na fé”, deve estar fora dessas vidas.
Os contos de Agnon não são documentos de fé, mas documentos de arte. E se desejam uma prova clara de nossa afirmação de que grande distância separa o artista da fé de seus heróis, deve-se encontrá-la em muitas de suas histórias, onde o narrador deixa de ser onipotente e é envolvido nos acontecimentos que descreve. É essa a situação em Oreach Natan Lalun (Hóspede por uma Noite), nas histórias de Sefer Hama assim (O Livro dos Acontecimentos), e numa longa lista de relatos escritos na primeira pessoa. Todas essas histórias são marcadas de confusão e revolta, e o objetivo da revolta é, sem dúvida, um protesto contra o mundo da fé tradicional, inspirado pela repugnância do narrador em aceitar as coerções da religião.
Assinale-se também que a apreensão do Judaísmo que faz o artista não é uniformemente positiva através de suas obras. Junto a grande afeição pelo modo de vida religioso judaico, existe lugar também para uma abordagem diferente. É uma questão de atitudes flutuantes, e do ponto de vista religioso sua produção inteira está aberta a interpretações divergentes. Não há um quadro monológico da Judiária e é difícil sustentar que os livros de Agnon nascem de uma perspectiva estável, predeterminada, rígida. Este padrão tradicional não passa de um revestimento exterior. Serve igualmente como máscara no contato do artista com seus leitores.
O elemento religioso tem especial importância nos relatos de Agnon. A maior parte da literatura hebraica moderna se relaciona com religião — um fato que não a transforma em literatura religiosa. Ao contrário, estamos capacitados a afirmar que, nas obras de Agnon, “nos é revelado o caráter especial, único, do problema religioso”. Em outras palavras, as histórias de Agnon são uma revelação singular da forma que assume o elemento religioso na literatura secular e é possível sintetizar o que é peculiar à apresentação artística do problema religioso em Agnon como a revelação de contradições, especialmente entre aqueles que protestam contra o Judaísmo tradicional, sem adotar qualquer perspectiva definitiva, à parte a de uma reação furiosa à fuga confusa do Judaísmo ortodoxo. É essa a regra na maioria dos relatos no Sefer Hama'assim, e algures. O desenlace em, por exemplo, Um Pão Inteiro, Amizade, As Velas, De Andar em Andar, ou O Útimo Ônibus, não é apenas o resultado de um julgamento equilibrado, moral, religioso ou intelectual, mas antes uma expressão existencial de uma espiritual mudança de direção que tem sua origem no choque, no terror e no pavor. É igualmente difícil, às vezes, falar de “arrependimento”, quando está ausente qualquer consideração moral ou religiosa, e o drama termina na fuga! “Naquele instante lembrei-me do ancião de pé, em frente da Arca, recitando a oração “E por nossos pecados”, e batendo sua cabeça contra a porta até abalar tódas as paredes da casa de orações. Meu coração abalou e eu fui arrastado em sua direção, mas o Sr. Anderman segurou-me a mão. Fiquei ali e contorci o rosto, tentando dar-lhe uma expressão agradável”. (Samuch Ve'enireh, Próximo e Visível, p. 107.)
Essa é uma situação típica. O ancião, “um homem de presença em cuja sinagoga eu costumara rezar durante os Grandes Feriados”, é um representante característico do mundo do Judaísmo tradicional. É também ele que deseja restituir o contador da história, o aventureiro, à sua esposa. Igualmente importante é o fato de que, de tódas as orações do ancião, o narrador, em sua confissão, lembre-se de “E por nossos pecados”. Mas a mão do narrador está présa na mão do Sr. Anderman, o “outro homem”, que chega como se fôsse do campo do diabo. Anderman é simplesmente uma variação do Sr. Gressler — o homem do pavor — em Um Pão Inteiro. Outro membro da mesma família é o Sr. Apropos — o homem da oportunidade casual — na história As Velas. Apropos, Gressler e Anderman são como felizes companheiros de mente in constante, cuja pretensão é seduzir o narrador. E aqui ele fica, no conto Ao Doutor e confessa como sua mão estava présa na do Sr. Anderman, e ainda assim não podia libertar-se dos olhos, turvos de lágrimas, do ancião, um homem de presença que estava “de pé, em frente da Arca, rezando “E por nossos pecados”... Em outras palavras, o narrador afirma as contra-dições, e vive-as, sem chegar a um decisão de sua própria vol-lição. Sua esposa, o correio, o caminho para a casa do doutor — todos êsseles elementos que aparecem nos contos — representam as injunções morais e religiosas, as missões, as obrigações, que a tradição religiosa impõe ao eu narrador que deseja escapar delas para o mundo dos Anderman, dos Gressler, aceitar o engôdo de Apropos, a oportunidade casual.
Um pré-requisito espiritual desse processo é a renúncia do narrador a seu poder pessoal de decisão. Em todos êsseles relatos, encontramos uma espécie de passividade, uma presteza em arrastar-se atrás da vontade dos Gressler, dos Anderman, por causa de Apropos — a oportunidade casual — como se os “acontecimentos” recontados ocorressem depois que o eu se livra da responsabilidade. Somente um abalo físico liberta éste eu passivo, em-pobrecido, dos terrores de suas aventuras. E às vezes ocorre que a história deixa o assunto em aberto. Reduzido a um estado de cisma interno, dividido em dois, o “eu” demonstra sua estranheza, sua desolação, sua suspensão entre dois mundos opostos. É isso que surge ao fim da história O Último Ónibus: “Quanta necessidade tinha eu, então, de ser transportado para longe daqueles que não me amam e daquele que era meu inimigo. Mas quem podia ter-me levado para longe estava ocupado com seus próprios negócios.
Despediu-se de mim, partiu com um sorriso fingido, e tomou seu caminho. E eu sigo arrastando-me atrás de quem era meu inimigo e do resto de seus companheiros que não eram amigos meus”¹ (Samuch Vé entreh, p. 113).
A solidão e a desolação são o resultado do anseio egocêntrico que somente se conhece a si mesmo, subesquente à brecha no muro das relações erigido pelo Judaísmo tradicional. Este eu moderno finge quando demonstra uma sujeição fictícia à armação da tradição religiosa. Na realidade, êsse eu esquizofrênico cobiça o mundo dos Anderman, dos Gressler e dos Apropos. Mas o fato de que a vida da armação religiosa é estampada com o sélo dos Anderman e dos Gressler, é uma vida de Apropos, de oportunidade casual, somente — êste fato afirma melhor do que cem testemunhas que êste eu desprezível é destituído de qualquer poder de decisão inequívoca em favor de uma vida nova completamente livre da autoridade do mun do da tradição religiosa. Conseguientemente, é a passividade, uma presteza em arrastar-se atrás, que caracteriza a condição do herói desses estranhos “acontecimentos”. “Arrastei-me atrás dele (Sr. Apropos) e entrei com ele numa casa onde eu nunca estivera antes” (ibid., p. 117). É a “casa” estranha, anormal, que o leva para fora do caminho. Mas a casa é sempre uma alusão ao erótico. “Eu estava embaraçado, pois sabia que não era aceitável para ele, desde que pusera os olhos sobre sua filha que não era destinada a mim” (ibid.). A passividade do herói também determina sua atitude para com o Sr. Anderman. Nessa história também, o terreno para a atividade do Sr. Anderman é preparado pela deterioração das relações entre o herói e sua esposa: “Não é honra para mim contar novamente que eu andava um pouco ressentido com minha esposa, e estava pensando comigo mesmo que vantagem se tira das mulheres.
Numa estrada próxima, perto de uma ponte escura, o Sr. Anderman encontrou-me e saudou-me. Retribuí sua saudação e procurei fugir dele. Ele segurou minha mão... O Sr. Anderman agarrou minha mão e não me deixou ir” (pp. 106 a 107). O mesmo ocorre, em Um Pão Inteiro, onde a ação deriva do Sr. Gressler e o herói arrasta-se atrás dele: “O Sr. Gressler parou a carruagem e me fez subir” (ibid., p. 150).
A natureza da solidão em grande parte dos relatos de Ágnon revela-nos a extensão da crise religiosa. O eu egocêntrico, esquizofrênico, que narra a história é consequência do enfraquecimento dos princípios básicos de vida na comunidade religiosa. A comunidade religiosa compartilha do sentido da vida para cada e todo indivíduo.
Nas histórias de Agnon tal sentido não mais existe. É objeto de saudade; sua encarnação social, a comunidade religiosa, compromete Agnon muitas vezes, mas antes como alguma coisa que se foi para sempre. É a situação em Hóspede por uma Noite, e já o era em Uma História Simples, E o Torto Será Endireitado, e Somente Ontem. As buscas repetidas de uma congregação ideal em Pi Schnai'im (Duas Vezes) e Hamichtav (A Carta) são apenas uma máscara para a amarga crise de fé. O lugar para a congregação ideal é a infância ou o mundo de sonhos e sombras. É o sópro de vida da comunidade religiosa, mas desde o término da infância a realidade mudou seu aspecto. A comunidade não mais provê um teto protetor para o eu, cujo próprio desenvolvimento to levou para longe. E para uma completa apreensão dessa dupla distância — a que o eu narrador toma de uma realidade anterior, e a que o eu toma destas impressões gravadas em sua alma na aurora da infância — não existe um momento maior de verdade do que o último confronto, no presente, com o objeto da emoção no passado. Este motivo, central em Hóspede por Uma Noite, é inseparável de grande parte das históricas. rias de Agnon, especialmente das escritas na primeira pessoa do singular. No capítulo déste livro que discute a história Duas Vezes, mostrei que não foram a sinagoga e as orações que mudaram; a alienação na descrição das diversas preces no Tom Kipur é simplesmente uma manifestação exterior do sentido de alienação na alma do narrador. A comunidade e a congregação já não são envoltas num halo de divina santidade. São instituições humanas e suportam as marcas dos defeitos humanos. Com um olho sóbrio, cruel, o poeta examina-as e tira vingança impiedosa dos nobres sonhos de sua infância.
A comunidade é idêntica a tódas as outras instituições mortais. A casa de oração que, na Carta, o narrador visita com o Sr. Klein, recentemente falecido, é uma casa de orações do morto. Os contatos genuínos com que o narrador-confessor se envolveu a si mesmo conduz ao mundo de sombras e fantasmas. O fato do narrador achar difícil escrever uma carta à irmã déste lamentado homem de negócios, o Sr. Guedalia Klein, “um dos grandes homens de nossa cidade”, é prova dessa reavaliação da vida da comunidade judaica. Na realidade, Klein ao quadrado é, como seu nome, pequeno. E a falsa grandeza que determinou seu valor na comunidade baseava-se no dinheiro. “O Sr. Guedalia Klein, um dos grandes homens de nossa cidade, rico filho de rico, querido das autoridades e honrado pelas criaturas... casou suas filhas com as melhores cabeças de sua geração, conseguiu espósias rica, querido das atuoridades e honrados pelas criaturas... casou suas filhas com as mais “ilustradas” inteligências da geração, para os filhos arrumou espósias ricas e lhe foi dada a ventura de vê-los gerar filhos e filhas vivos e espertos, prontos a tudo que a Terra precisasse... Todos os êxitos da época cumularam-no neste mundo e certamente, no mundo vindouro, estava-lhe reservado tudo quanto há de bom, em virtude de seus legados às obras beneficentes e de caridade” (Samuch Vénireh, p. 221).
O tom satírico acentuado nesta história é dirigido contra os valores convencionais da comunidade religiosa judaica. Na Jerusalém moderna, os homens de negócios, como o grande Sr. Klein, continuam a tradição vergonhosa de outorgar grandeza ao rico. Mas o tom satírico insurge-se também contra a esfera religiosa. Os éxitos temporais que vêm juntos neste mundo também esperam o rico no mundo vindouro, onde “certamente estava-lhe reservado tudo quanto há de bom”. O início da história é igualmente um protesto contra as formas de filantropia praticadas na comunidade, que são chamadas “obras beneficentes e de caridade”. Entretanto, esse protesto contra tais práticas da comunidade judaica que, em outros lugares, quando Agnon des creve o passado distante, parecem tão ideais — éste protesto nos é familiar em suas maiores histórias. A crítica à comunidade religiosa judaica atinge o auge em Uma História Simples. A verdadeira Buczacz de E o Torto será Endireitado e certamente de Uma História Simples está longe daquela perfeição que outras histórias de Agnon às vezes tentam como a marca distintiva da comunidade religiosa judaica.
Um estudo completo das histórias de Agnon compleé à conclusão de que existe uma vasta diferença entre descrições da vida da comunidade religiosa judaica, e de que tudo depende da distância do tempo. A realidade do presente e do passado imediato é descrita a partir de um ponto de vista crítico, irônico, em que a comunidade religiosa serve de objeto de uma sátira intelectual. De outro lado, Agnon permite-se traçar um retrato ideal da vida da comunidade judaica, suas instituições religiosas, seus grandes rabis e seus homens santos no passado distante. No entanto, êsse contraste, cuja existência pode ser provada em quase todos os relatos de Agnon, tem um notável significado para a retratação do elemento religioso em sua produção literária total.
Como um exemplo, demoremo-nos mais um pouco em nossa discussão do conto A Carta, onde a falta de uniformidade estilística de linguagem testemunha também a existência de esferas diferentes e opostas. É fácil mostrar que a linguagem é grave, triste e formal naquelas passagens cujo tema é esse distante mundo perfeito da Judiaria ideal não mais encontradiço na realidade atual. Depois do capítulo inicial que descreve os poderosos feitos do grande Klein, depois da confissão característica, “logo que me sentei para escrever, eu não sabia a quem escrever”, testemunhando a reação do narrador contra os liames obrigatórios e os valores convencionais, após a melancolia egocêntrica, concomitanté de uma profunda insatisfação com a realidade presente, percebemos um ponto crítico. Mais precisamente, Agnon revela aqui o segundo dos dois pólos em tônio dos quais se constroem as suas histórias.
Essa bipolaridade é característica de todos os relatos de Agnon. “Faz um ano e meio desde que me libertei de tôdas as ocupações a fim de estudar os escritos dos nossos rabis recentes. Renunciei aos prazeres temporais e não me demorava no sono. Todavia, sonhos bons como tive acordado não são todos os sonhadores que têm, nem mesmo dormindo. Dias idos e comunidades extirpadas vieram e postaram-se à minha frente como eram no tempo em que Israel inteiro mantinha-se em Seu temor e dedica-va seu amor à sabedoria da Torá. Às vezes eu tinha o privilégio de ver os grandes de Israel, e os príncipes da Torá daquela geração.
Tivemos eras e tempos em que houve entre nós patriarcas e anciãos, juízes e reis, heróis e guerreiros, visionários e profetas, homens da Grande Sinagoga e Asmoneus, tanaítas e amoraítas, saboram e gueonim, guias e príncipes, rabis e pos-kim, liturgistas e poetas que exaltaram a glória de Israel e santificaram o nome dos Céus na terra. Mas eu gosto dos nossos rabis posteriores. Como uma criança no sábado ao escurecer, fica a consolar-se com a idéia de que o schabat ainda demorará a ir embora, assim eu me consolava com as palavras dos nossos mestres mais recentes, de que ainda resta algo da Torá” (ibid., pp. 223 a 224).
Este parágrafo é de grande importância. Abre nossos olhos para a paisagem espiritual que provê o narrador de um refúgio contra o desafio da realidade atual. Submergir num mar de livros é uma solução altamente problemática, e Agnon é justamente quem não poupa esforços para mostrar-nos a natureza quixotesca de tal fuga.
A história Ad Hena (Até Agora) mostra claramente a conexão entre um lar instável e a fuga para o mundo dos livros. O lar deixou de representar o único foco seguro, duradouro, nas histórias de Agnon. De maneira grotesca, ele descreve a fantástica perseguição de livros que, em vez de conferir salvação ao homem, se transformaram num estorvo. Não têm elos qualquer valor absoluto; realizam qualquer função que se lhes imponha.
Num período em que os valores da sociedade vacilam, os livros atestam a impotência do homem. “De tempos em tempos a alma desperta e lembra o que foi antes, como existiram homens sábios e poetas, e de tôda a sua poesia e dos livros de sabedoria absolutamente nada subsiste, pois foram usados como carvão para cozinhar comidas e assar pão” (Até Agora, p. 24). O valor de um livro é apenas relativo. Serve ao propósito do homem, não o inverso. É essa uma abordagem revolucionária, em conflito com o esquema de valores da comunidade religiosa judaica. Os livros do Dr. Levi, o objeto de tôda a corrida em círculo em Até Agora, revela a mudança na atitude de para com os livros: “O fato é que o Dr. Levi pusera de lado dois quartos cheios de livros e, neste entretempo, eles foram comidos pelos ratos.
Mesmo que os ratos não os houvessem comido e eles tivessem subsistido como eram, está morta aquela geração inteira que tivera necessidade de seus livros” (ibid., p. 29).
O abalo é duplo. Não há certeza de que os livros possam resistir às devastações do tempo. Caem prêsa de ratos. Todavia, o que ameaça ainda mais a autoridade do livro como um objetivo em si mesmo e um valor supremo é a mudança na atmosfera intelectual. Cada geração tem seus próprios livros. Os livros que uma geração acha necessários, outra geração pode passar sem êles. O tempo faz um duplo assalto ao livro; não é por acidente que o pano de fundo dos acontecimentos do relato é o período da Primeira Guerra Mundial. Como se estivesse em uma posição vantajosa diferente, Agnon descreve os abalos do tempo que são o tema central de Hóspede por Uma Noite. Foi a guerra que destruiu tôdas as ilusões e certezas quanto à permanência dos valores e das instituições. Surgirá uma nova geração que não terá qualquer ligação com o mundo dos livros, os quais foram uma vez a fórça duradoura do homem: “Não há ninguém para aprender dêstes livros, e os ratos vieram roê-los” (ibid., p. 31). Repetidas vezes, em uma variante após outra, o mesmo tema reaparece — a perda da autoridade do livro. Seria apropriado aqui insistir mais demoradamente nos elementos comuns a Até Agora e Hóspede por Uma Noite, tanto no motivo como nos problemas de composição (narração na primeira pessoa, e a natureza confessional de ambas as histórias), mas devemos contentar-nos com apontar a importância de Até Agora para o sentido do elemento religioso nos relatos de Ag-on. Ambas as histórias giram em tônio de um eixo único: o contraste entre o mundo antes da guerra e a realidade que se seguiu em sua esteira. “Sentei-me e olhei para os dias antes da Guerra” (ibid., p. 77). A guerra revelou o poder pleno do tempo. É essa a moral de Hóspede por Uma Noite e de Até Agora. O narrador perdeu a orientação; foi lançado dentro de um mundo de caos e onde, uma vez, permaneciam de pé casas e edifícios aparentemente eternos, o solo foi agora retirado de sob seus pés. “É essa a ironia do destino, que eu retorne de mim mesmo para o lugar de onde fugi.” Essa frase de Até Agora pode servir de mote para Hóspede por Uma Noite.
Quão significativa e multifacetada é a fingida ingenuidade de Agnon, especialmente sua “ingenuidade religiosa”, podemos ver no fim de Até Agora. Nas últimas páginas, temos notícias da construção da casa cujo objetivo é fornecer um lar para os livros. “Fui compelido a retornar à Terra de Israel. Tomei um pedaço de terra e construí uma casa de vários quartos. Eu mesmo me contento com um quarto, então por que vários quartos? Porque eu preparei um lugar para os livros do Dr. Levi... assim construí um lugar para os livros do Dr. Levi... suas visões não são elevadas e éle sabe que não adquiriu uma casa por seus próprios méritos, mas através dos livros do Dr. Levi, que precisam de um lar”.
Temos aqui uma ingenuidade adotada, como se o autor tentasse fazer-nos esquecer o significado de sua estória. As ameaças do tempo e o valor relativo dos livros permanecem imudados. “Os livros são feitos e colecionados e deixados aos herdeiros que dêles não têm necessidade” (ibid., p. 56). O livro não tem valor absoluto. Sua importância depende da atitude de cada época, de cada geração.
Não obstante, há igualmente algo mais do que uma ingenuidade adotada. Diante de nossos olhos, toma forma uma retirada para uma certeza fictícia. É esse o alicerce sobre o qual se erige a solução final nas histórias de Agnon, no que diz respeito ao elemento religioso. A fuga compele a uma solução subjetiva em seus relatos. É uma fuga que está bem consciente de sua refutação pela realidade contemporânea. Consequentemente, é uma fuga para o passado. “Como uma criança no sábado ao escurecer... Assim eu me consolava com as palavras dos nossos mestres mais recentes, de que ainda resta algo da Torá” (A Carta). De outro lado, a obrigação de escrever a carta é uma das reivindicações do presente, cuja realidade, juntamente com a delineação da comunidade religiosa e seus líderes, nega o valor da fuga para o mundo de “nossos rabis recentes”. “Até que surgiu a questão da carta e pus de lado meus estudos” (Samuch Ve'enireh, p. 224). Entre estas duas realidades não há compromisso. Uma é representada por “nossos rabis recentes”; a outra pelo Sr. Guedalia Klein, e especialmente pelo Sr. Schreiholtz. Dentro das obras de Agnon, também, existe um profundo cisma cuja fonte é a dualidade de sua atitude em relação à questão religiosa. De um lado existem suas histórias modernas, Schirá e Sefer Hama'assim; de outro, a fuga para Atem Reitem (Vós Testemunhastes) e Iamim Noraim (Dias Terriveis), para os contos hassídicos e uma certa classe de contos, cuja maior parte está reunida em Haesch Vehaetzim (O Fogo e as Arvores).
Demos uma nova olhada no relato A Carta, na parte em que nos demoramos. Está claro que o caráter do Sr. Guedalia Klein muda gradativamente. O Guedalia Klein que conversa com o narrador não apresenta qualquer semelhança com o Guedalia Klein quando estava vivo.
O narrador tem uma conversa genuína com éste homem de negócios somente depois de sua morte. Sua caminhada juntos e sua visita à congregação ideal ocorre numa esfera além da realidade, no mundo de sombras e fantasmas. Tudo é origem de espanto, de mal-assombração, de terror. “Velhos e velhas apressavam-se, tal como a gente se apressa para a prece da tarde, e à passagem, miravam com espanto o Sr. Guedalia Klein, enquanto seus lábios se moviam. Olhei para éles, admirado, pois tanto éles como suas roupas diferiam de todos os demais velhos de Jerusalem. Fui tomado de um tremor”. (ibid., p. 225).
Encontramo-nos no mundo do morto. A atmosfera é a mesma das histórias do Sefer Hama'assim. “Pois êle não receia que o reconheçam como defunto e o desdenhem” (p. 226). E aqui está a descrição da casa de estudos e da congregação ideal: “Começou a tatear com a bengala como um cego e disse: Por favor, do seu lado, o senhor não vê uma casa de estudos? Sim, há uma casa de estudos aqui... Os devotos estavam em pé, curvados, com a face voltada para a parede. O Sr. Klein diri giu-se para o alto e eu restei junto à porta... brilhava uma luz encoberta de quatro candelabros de cobre, de estanho, de ferro e de argila. Uma quietude que não era deste mundo reinava no recinto."
Nem nosso mundo nem nossa existência é descrita aqui; é um mundo de “sonhos”. Sonhos podem ser sonhos bons, vistos enquanto estamos acordados, ou podem ser pesadelos. Mas o que caracteriza a história A Carta é que aqui o narrador junta-se à congregação ideal e encontra “um dos gueonim do mundo, príncipe da Torá, com cujos livros eu me ocupava”. O coração do narrador abala-se com êste grande homem, mas o Rabi não dá qualquer atenção ao narrador: “Imerso como estava no Ensinamento e no temor a Deus, não viu o fósso nem a mim que acudira para salvá-lo déle... O Eterno, louvado seja, fizer que o justo se arrimasse em mim. Seu corpo era leve como o de uma criança. Mesmo assim, sei que hei de senti-lo até que ponham terra sobre meus olhos” (p. 227).
A experiência de suprema felicidade descrita aqui é o quinhão de quem é dotado de bons olhos. Todavia, sòmente o passado distante é capaz de outorgar tal felicidade; ela não é dêsse mundo. Além do mais, a vida não tem importância para semelhante experiência.
Lembra estados da mente descritos por místicos: “Algo mais grandioso nunca mais me ocorrará. Não me lembro se eu estava triste ou alegre, mas lembro que meu coração sentiu um outro ímpeto que o térmo “alegria” ou “tristeza” não podem apreender. Se tivesse deixado o mundo naquela hora, não sentiria pesar” (p. 228). A morte não tem péso. Este “algo grandioso” dissolve a barreira entre a vida e a morte, mas semelhante evento sem dúvida está acima e além da realidade presente, que acha estranha a grande felicidade e a destrói. O eu permanece à beira da extinção. “Mas sabia que, se puxasse mais o cobertor e o colocasse acima de minha cabeça, poderia, por seu intermédio, entrar no outro mundo, num abrir e fechar de olhos. A todos que me desejem bem, seja concedida uma hora tão benfazeja!” (ibid., p. 228).
Não me lembro em todas as histórias de Agnon de uma passagem similar, que nada mais seja senão um anseio pelo aniquilamento do aqui e do agora e libertação do opressivo fardo da vida. Este “algo grandioso”, “tal hora benfazeja” liberta ou eu de coisas que o oprimem, dos terrores do tempo e dos terrores da morte, daqueles mesmos temores que, em grande medida, determinam o curso das histórias em Sefer Hama'assim, como se, afinal, a alma tivesse atingido seu destino: “... e meditava. Por que as pessoas temem tanto a morte? Alguma coisa sussurrou-me: Puxa teu cobertor para cima! Logo a seguir, meus dedos encheram-se daquilo que nenhum térmo “alegria” ou “tristeza”, apreendia” (ibid.). Uma espécie de ex periência mística, uma experiência de imensidade, quase identificável à cessação da existência, domina o eu, anula as barreiras entre o eu e o mundo inteiro, e dá origem a um sentimento de suprema felicidade. E sómente no outro extremo dentro das obras de Agnon, na introdução aos Dias Terríveis, encontramos algo comparável a essa experiência descrita em A Carta. Raramente Agnon concentrou tanta ironia, sarcasmo e cinismo numa história como nesse relato, um dos ataques mais agudos, destrutivos, à vacuidade da vida judaica jamais escritos na história da literatura hebraica. O “algo grandioso”, “tal hora benfazeja”, se acham no pólo oposto da realidade contemporânea que é dominada pela vulgaridade, pela hipocrisia e pela esmagadora estupidez tagarela de todos os variados “Schreiholtz”. Não é por acaso que o primeiro a elogiar o grande Sr. Klein é o Sr. Schreiholtz — “madeira guinchante”: “O Sr. Schreiholtz, o principal orador em tôda parte.
Fəz uma cara triste e começou com voz sufocada, como se não pudesse falar devido à grande dor. De repente, elevou a voz e ergueu a mão com os dedos abertos, procurando uma palavra que transmitisse a profundidade de seu pensamento. Quando a encontrou, borbulhou cada vez, discursando e gritando: O falecido foi, o falecido foi, e entre um “foi” e outro recordava onde vira o falecido e não saiu disso” (ibid., p. 244). Schreiholtz é o representante da realidade contemporânea judaica, o primeiro de uma fila de homens que elogiam o morto: “um professor convertido em banqueiro... um concidadão do extinto... o Sr. Ahron Efrati... o hazan da sinagoga... que tirou um barrete de seis pontas, curvou-se, colocou na cabeça o barrete, pegou um diapasão, levou-os lábios, curvou-se, bateu o diapasão no canto da mesa, levou-o novamente aos lábios e depois ao ouvido e começou a cantar “Deus cheio de Misericórdia” (ibid., p. 245).
A descrição do serviço dos mortos podia servir de cena para algum drama do absurdo de Ionesco ou Dürrenmatt. Aqui e através de tôda a história, tudo declara a desintegração e degeneração da existência judaica.
Tratei extensivamente de A Carta, porque é uma prova da atitude real de Agnon em relação ao problema religioso, que êle vê em tódia a sua diversidade, sem simplificação excessiva e sem sujeição à perspectiva ortodoxa. A escrita real da “carta” é quase impossível, desde que tal carta de condolência seria uma expressão de hipocrisia, uma aceitação da realidade contemporânea. Mesmo as orações mudaram seu caráter e é desnecessário acentuar particularmente o fato de que essa mudança na natureza da oração reflete simplesmente a mudança na atitude do narrador para com a fé religiosa. “Encontro-me de pé e penso: Esta prece (Deus cheio de Misericórdia), que sempre me comoveu, hoje me causa enfado” (ibid.). Por con seguinte: o enfado na vida do homem moderno substituiu a dor ao crente ingênuo. De passagem, podemos apontar que o trecho seguinte é escrito num estilo grotescamente facêto. Tal estilo não é fortuito; já aludi aos muitos estilos que Agnon usa nesta história, que ocupa no total menos de trinta páginas. Aqui temos uma pequena amostra do estilo fazcão que utiliza para enfrentar a realidade contemporânea: “O barrete saltitante, no topête do oficiante, e o nó-da-garganta, por baixo de sua língua, às vêzes desaparece e as vêzes se estabelece, éle move sua voz para a direita e para a esquerda, para os enlutados e para os consola-dores, e barretes e topêtes dizem “Deus cheio de Misericórdia” (p. 245).
Esse cômico rimar desnuda o verdadeiro caráter do “serviço dos mortos”, mas o tom da zombaria não consegue simplesmente revelar a natureza da realidade presente; também deprecia o poder da própria oração, lança dúvidas sobre sua pretensão de ser um valor supremo, absoluto. Tudo aqui proclama o colapso do versículo bem conhecido de I Samuel, capítulo 3: “E a vela votiva ameaça extinguir-se e o homem do barrete, remata a Prece da Deposição...” (p. 246). O serviço dos mortos termina numa mistura de odores: “Deixei o recinto da celebração, A praça estava repleta de automóveis... Pouco depois, nada mais destaca deles além de um tênue odor de gasolina queimada, de cosméticos e de poeira” (p. 247).
A história conclui com uma descrição de um encontro posterior com o falecido Sr. Klein na casa do narrador. Novamente, como é diferente êste Sr. Klein do homem de negócios que o Sr. Schreiholtz tinha elogiado! O núcleo de seu diálogo é o apelo do narrador ao Sr. Klein para ajudá-lo a redescobrir o mundo desvanecido, a comunidade ideal, a congregação ideal: “Aproximei-me dêle e disse: “Estou procurando a casa de estudos. Admirado, repetiu minhas palavras: O senhor está procurando a casa de estudos? Que casa de estudos está procurando? É aquela em que estive comigo?” (p. 248 a 249). Mas esta casa de estudos não é dêste mundo. Sômente os mortos vão lá, e sonhos, bons ou maus. A realidade contemporânea é um desapontamento. Entra em conflito com o quadro ideal, tradicional, da vida judaica; é igualmente evidência de uma crise difícil na fé e nos valores judaicos. Não há solução para os problemas, não há decisões finais, somente uma tentativa, por assim dizer, de viver as contradições, de afirmar tanto o positivo como o negativo, e no fim escapar da realidade para o passado, para o mundo dos sonhos.
“Ele tirou o charuto da bôca e replicou: Deus vivia no coração deles.
Falei-lhe baixinho: Deus ainda vive.
Ele retrucou: Mas não em nós."
(A Carta — Samuch Ve'enireh, p. 236.)
Os relatos de Agnon, expondo cruelmente a extensão da crise religiosa, constituem igualmente uma expressão irresistível do anseio do homem moderno por religião. O elemento religioso em Agnon é mais do que mero tema artístico; sempre conduz ao âmago do conflito sobre o sentido da existência judaica. Claramente, sua existência dentro da esfera épica revela, consciente ou inconscientemente, a estreiteza da interpretação ortodoxa.
Semelhante interpretação é capaz de ver apenas uma parte do fenômeno; não concede validade à totalidade do Judaísmo e da vida judaica. É essa igualmente a razão por que a ortodoxia não conseguiu nem conseguirá criar uma obra-prima artística completa da realidade secular. Pois a ortodoxia somente continuará ortodoxia se ignorar os muitos aspectos da realidade secular. Em nosso mundo só pode ser um verdadeiro artista quem esteja preparado para combater a realidade contemporânea — mesmo que a reação pessoal ao combate seja, no final das contas, uma fuga.
Todavia, antes dessa solução passiva, o artista logrou traçar o quadro do nosso mundo ignóbil, louco, a desmoronar e a retornar à vida.
No entanto, tal como uma interpretação ingênuamente religiosa omite o ponto de nossa discussão, assim faz qualquer tentativa que veja em Agnon o grande destruidor da religião: “Desde Bialik não houve um destruidor maior da religião”³. Não tenho qualquer intenção aqui de entrar em polêmica contra o interessante artigo do Schamir, mas o interesse de uma interpretação correta da obra de Agnon necessita de uma dissociação clara de qualquer tentativa de vê-lo através do espelho de The Outsider, de Colin Wilson elevado a 4. Somente uma inabilidade em compreender a ambiguidade, rica em contradição e paradoxo, nas obras de Agnon podia conduzir a uma interpretação que nem vê nem ouve a afirmação e a negação simultâneas; é êsse o verdadeiro valor a ser consignado à tradição religiosa nas obras de Agnon. Não é essa uma solução lógica, consistente, mas é a verdade imanete de sua obra, que não responde às demandas abstratas do método lógico. O artista modelo uma certa visão da vida e da realidade que não pergunta pelo programa da ortodoxia ou do radicalismo. Não se deve interpretar Agnon como um niilista ou um incréu: “Hóspede por Uma Noite é uma história da perda do sentido da vida, da negação, do repúdio da existência humana. O último degrau do desespero e da descrença” (Schamir, op. cit., p. 83). Não! Isso é uma generalização sem fundamento. A descrença e o desespero podem ser encontrados em Hóspede por Uma Noite, como em muitas narrativas de Agnon, lado a lado com a crença, a confiança e a esperança. Similarmente, é difícil encontrar qualquer prova do texto para o seguinte sumário experimentado, supersimples, de Só-mente Ontem: “Os heróis de Agnon não têm problemas sérios a enfrentar... tudo são mentiras... somente o desespero e a morte são tangíveis e reais” (ibid., pp. 90 a 91). Se assim fôsse, se fôsse possível definir a atitude de Agnon para com a tradição religiosa judaica tão fácilmente, suas histórias nunca teriam atingido tanta profundidade artística. Seu caráter multifário, seus níveis de significância, são o que atrai e mantém o leitor fascinado.
A história dá voz àquela terra-de-ninguém das coisas não mencionadas que, todavia, eludem todas as tentativas de torná-las ajustadas a uma rígida armação ideológica, da Esquerda ou da Direita. Consequentemente, o entusiasmo da Ortodoxia e do Progresso, uma espécie de amor interesseiro, pode terminar num amargo desapontamento quando as obras de Agnon são solenemente introduzidas entre os muros de um baluarte ideológico. Súbitamente, tornar-se-á claro a ambos os campos que, com grande alegria e depois de muito esforço, lograram puxar para dentro de seu mundo uma espécie de cavalo de Tróia. “Deus ainda vive” é dito num murmúrio, numa débil voz cansada, mas é dito. De outro lado: “Mas não em nós”. Quem pode construir sobre tais confissões? — Certamente não aqueles que interpretam Agnon superficialmente de um modo ou de outro. A falta de solução final em Agnon, na medida em que o atestam suas histórias, sua suspensão ideológica entre dois mundos opostos, é essa, com efeito, sua solução final. Os heróis de suas histórias existem em dois mundos juntos, e há muito movimento entre êles, obscurecendo as fronteiras aparentemente distintas, até que no fim se cria uma nova unidade cuja natureza é estranha àqueles que traçam claras linhas sólidas entre religião e descrença.
Talvez èsse movimento incessante, rompendo os limites convencionais, seja antes de tudo uma expressão do desejo de criação do artista; em hipótese alguma, pode êle aceitar a rigidez que é a marca registrada de um ponto de vista dogmático. Na verdade, o conjunto da obra de Agnon declara guerra à rigidez, e a rigidez artística, característica do Judaísmo ortodoxo, é somente um exemplo da rigidez entre as forças da vida. As histórias de Agnon — em contraste com a opinião aceita — são todas dinamismo, mudança constante, aparente e oculta. A linguagem medida, equilibrada, das histórias, tão calma e econômica superficialmente, é máscara a esconder a tensão dinâmica. Mas tal linguagem artística é igualmente um protesto contra os caminhos da Judiaria religiosa durante centenas de anos, até os tempos modernos. A Judiaria religiosa quase esqueceu o sabor da criação artística.
Talvez não haja uma personagem que dê tal expressão quintessencial a essa mudança,êsse desejo de criar, quanto Ben-Uri em Agunot (Espôsas Abandonadas). De maneira trágica, a história descreve o conflito entre o elemento criador e o fossilizante no Judaísmo. A história inteira parece ser uma declaração positiva sobre o modo de vida do Judaísmo tradicional. Mas isso é correto e incorreto porque, como sempre em Agnon, afirmação e negação apresentam-se entrelaçadas. Agnon afirma, porque descreve a vida tradicional com amor, afeição e aprovação. Mas o artista Agnon diz não, pois a história tôda é um protesto contra a depreciação da fórça criadora, realidade sempre renovada e cambiante. Os representantes dessa fórça dinâmica não são os representantes oficiais do Judaísmo. Nem Reb Ihezekiel, o noivo infortunado, nem Reb Ahiezer, o oficial, mas o profissional-artista, o jovem Ben-Uri. Somente ele, criador e inovador, é capaz de construir a Arca. Em sua alma arde o fogo sagrado, mas seus contemporâneos, congelados num mundo que não conhece nenhuma das mudanças operadas pela inovação, permanecem distantes de qualquer apreciação de seu trabalho. Somente Diná, a filha de Reb Ahiezer, percebe seu gênio, a centelha de santidade na alma do artista. E ela sabe que esta centelha é uma revelação do divino. Reb Ahiezer também é conscião dos talentos de Ben-Uri, mas para ele o jovem é apenas um artífice. Contudo, Diná conhece a verdade, revelada ao leitor pelo narrador, sobre a personalidade de Ben-Uri: “Era ele um homem humilde, um homem taciturno, aparentemente não mais do que um simples artesão, mas a exuberância de espírito brilhava em seus olhos e em suas obras” (Elu Ve'elu, p. 407). Então o artista não é o que parece. É “um simples artesão”, mas a “exuberância de espírito” que “brilhava em seus olhos e em suas obras” ninguém era capaz de ver. Aqui existe uma profunda conexão entre a fórça criadora ativa do artista e a fórça criadora passiva da mulher, a representante do eros. A história inteira entretece com habilidade consumada os temas do eros e do artista criador.
O primeiro capítulo já é uma peça maravilhosa de camuflagem, como se o narrador quisesse contar-nos uma simples estória religiosa tradicional, enquanto que, atrás da máscara de “uma história na Terra Santa, possa ela ser Reconstruída”, revela-se uma verdade totalmente diferente. O emprigo de motivos tirados do Cântico dos Cânticos é ambíguo desde as primeiras linhas do relato. “E quando o Abençoado vê que ela não cresceu feia e repugnante mesmo na terra de seus inimigos, ele inclina Sua cabeça para ela e louva-a, dizendo: Vê, tu és formosa, amada minha. E é esse o segrado da grandeza, da fórça, da elevação e do amor que sente cada homem de Israel. Todavia, às vezes faz-se sentir um impedimento, uma ameaça se esconde no material, o xale de orações é estragado... tudo é assaltado por um sentimento de vergonha e “êles souberam que estavam nus” (ibid., p. 405).
Tudo aqui aparentemente se refere às relações entre Deus e o Povo de Israel. Mas a verdade interna dessa história investe estas linhas, cujo significado aparente é religioso, de um sentido que é secular e erótico. “Seu amado retirou-se e foi embora, ela o procurou, ela suspirou e disse: Se encontrarem meu amado, digam-lhe que estou doente de amor”. Até êste ponto o leitor ainda podia ser induzido ao êrro de pensar que é um caso de interpretação religiosa tradicional do Cântico dos Cânticos, mas a frase seguinte ergue o véu e torna-se evidente que o tema é o amor secular entre o homem e a mulher: “E essa doença de amor a nada mais podia conduzir senão à melancolia, Deus nos livre!” Temos aqui, em miniatura, a essência do relato do destino de Diná e Ben-Uri. Ambos representam as forças da criação, perpétuamente renovadas, do eros e da arte, em oposição às forças da estagnação. A força criadora, a vontade de criar, estão em conflito com a estabilidade que leva à estagnação, mas a força criadora do artista é diferente da força do amor. O artista deseja amor, fascina a mulher e subjuga-a. Mas, enquanto o amor vê-se a si mesmo como sua única justificativa e propósito final, o artista emprega-o simplesmente como um meio para um fim: “Diná ouviu sua voz (de Ben-Uri) e desmaiou de alegria. Pois éle entoara de tal modo a sua voz que esta podia arrebatar-lhe o coração com sua música, que ela podia ali permanecer e nunca mais mover-se”. A força da criação artística não conhece laços, nem compromissos. É toda exigência. Mulher, amor, o mundo inteiro se submete à sua tirania: “Mas Ben-Uri, uma vez ocupado em seu trabalho, absorveu-se tanto nele que olhos e coração e mente permaneciam antes de tudo fixos na Arca, com exclusão de tudo o mais. Ben-Uri não pensava então em Diná, mas esqueceu-a totalmente” (ibid.).
O que Reb Ahiezer e Reb Ihezekiel podem entender do mundo de Ben-Uri? Diná, também, somente pode amar a Ben-Uri, sua devoção exclusiva à criação artística parece à môça uma infidelidade. Consequentemente, ela sente ciúmes da Arca que expulsou da mente de Ben-Uri todos os pensamentos que lhe eram dirigidos: “Ela empurrou e impeliu a Arca. Esta inclinou-se e caiu pela janela aberta” (p. 408). Embora a Arca não se tenha danificado, sua santidade levou o eros a rebelar-se, pois o amor aprova somente a si mesmo, exatamente como a criação artística admite apenas seus próprios limites. Com o completamento do processo artístico, não há lugar para nada mais, e sente-se um grande vazio no mundo: “Ben-Uri olhou para sua obra e maravilhou-se com ela onde ela estava, e êle se sentiu apenas como um vaso vazio. Sua alma entristeceu-se e ele começou a chorar" (ibid.). No relato Agunot, o eros e o desejo de criar libertam-se da suprema autoridade da tradição religiosa; o eros e a arte determinam seu próprio lugar no mundo da santidade religiosa. “A que se assemelhava a Arca naquele momento?
A uma mulher com suas mãos estendidas em oração, seus dois seios como as duas tábuas de pedra, levantados com seu coração em prece ante seu Pai no céu" (p. 409). A mulher e seus dois seios são idênticos à Arca e às duas tábuas de pedra. No fim a Arca é escondida longe. O artista desaparece, ninguém sabe onde.
O casamento não foi um sucesso. Reb Ihezekiel e Diná “nunca se tornaram íntimos”. Foi o dinheiro que determinou a escolha de Reb Ihezekiel. Éle abandonara uma empregada digna, Fridele, na Diáspora, porque era pobre. A ieschivá fundada por Reb Ahiezer torna-se cada vez mais vazia.
Os estudantes vão embora. Finalmente, Reb Ihezekiel dá o divórcio à sua esposa: “E assim como éle nunca olhara para ela quando estavam casados, assim agora éle não olhou para ela quando se divorciavam” (p. 414). Os modos tradicionais de vida demonstraram a sua esterilidade.
“Almas desoladas e tateantes em sua desgraça, lutando para serem reunidas” (Espósas Abandonadas).
Os arranjos do mundo pretensamente decente da tradição religiosa são prejudiciais às forças da verdadeira vida. O que parece criação termina em destruição. Tais arranjos separam o que deveria estar ligado, ligam o que deveria estar separado. Em Agnon o ato de criação artística é encarado como a suprema expressão da realização de uma vida plena, verdadeira.
O desenvolvimento de todo elemento religioso nas histórias é um corolário da imensa importância atribuída às forças da criação artística e do eros. Espôsas Abandonadas é, como dissemos, apenas a concisa expressão artística da estima de Agnon pela fórça criadora, de seu protesto contra tudo o que há de rígido naqueles modos de vida, que não reconhecem mudança e dinamismo na vida. O emprigo ambíguo da interpretação religiosa tradicional do Cântico dos Cânticos é um motivo recorrente nas estárias de Agnon, particularmente a passagem “Cama de Schlomo laacov” do terceiro capítulo de O Dote da Noiva. O conto Laila min Haleilot (Uma Noite) é uma variante secular do Cântico dos Cânticos, e o auge do enrêdo de Sipur Paschut (Uma História Simples) é um protesto em nome de eros contra as forças de estagnação na comunidade religiosa judaica. O mesmo ocorre na história Bidmi Iameha (Na Flor dos Anos). Em Espôsas Abandonadas, Agnon censura o rígido formalismo que perdeu contato com as fórças sadias, criadoras da vida. O dinheiro e a cobiça de dinheiro separam as almas que eram destinadas uma à outra; Reb Ihezekiel abandonou Fridele pelo dinheiro de Reb Ahiezer. O dinheiro é causa de que as almas de Ben-Uri e de Diná “se pasmem e tateiem em sua desgraça, e continuem lutando para serem reunidas”. O dinheiro deslumbra os olhos de Baruch Meir em Uma História Simples, éle abandona sua noiva Mirel e casa-se com a feia Tsivel. O dinheiro arruína a vida de Herschel Horowitz e liga-o para sempre com uma mulher que éle odeia, Mina, em vez de Bluma, que lhe era destinada. A devoção ao dinheiro prejudica as forças da criação.
E desde que o Judaísmo tradicional não aprecia própriamente as fórças da criação, as leis de mudança e dinamismo na vida, éle põe em risco o lar. A ameaça ao lar nos relatos de Agnon, e a questão tódia do lar relacionam-se com a oposição de Agnon ao estagnamento: O eros e a vontade de criação artística constituem os rivais principais do lar estabelecido. A primeira vista, podemos estar inclinados a ver nesse protesto contra a fossilização dos modos tradicionais de vida uma continuação dos princípios da Hascalá. Mas o caso de Agnon é diferente das histórias dos escritores da Hascalá. Agnon não põe a culpa no Judaísmo ortodoxo em todos os seus aspectos, como faziam os escritores da Ilustração. O que sobressai em sua abordagem da questão religiosa é que ele revela a tendência do Judaísmo ortodoxo a perder todo contato com as fontes da criação. As histórias de Agnon não rejeitam a vida religiosa tradicional. O Judaísmo ortodoxo é obrigado a atender à necessidade de reforma dentro da armação da própria ortodoxia.
Como um artista criador, a decisão final de Agnon é sempre em favor das forças da criação, da renovação e do crescimento. É essa decisão que o impele repetidas vezes a questionar os valores religiosos e procurar o significado vivo da religião, pois ele não pode tolerar a estagnação e o retraimento em face da mudança. A importância do eros nos relatos deriva do fato de que o eros é a garantia perpétua da renovação e da criação. E, quando considerarmos a força da criação artística e do eros e a luta destas forças contra a vida judaica tradicional, torna-se evidente que os relatos de Agnon revelam a deterioração da vida religiosa, assim como não se cansam de criticar a deterioração da vida secular. Uma causa de inquietação na deterioração da vida religiosa é sua alienação das nascentes da beleza, da arte, do dinamismo e da inovação. Às vezes, as formas de vida religiosa se fazem problemática, degenerada, evidência dentro das histórias épicas de um processo de alienação no mundo religioso. Tal processo se torna um fato reconhecido no momento em que o mundo religioso abandona a conexão viva, vivificadora, com as fontes da criação e da renovação. constante, com o eros, com a criação artística, com a construção de Israel. Ao contrário, a criação, a nova e a novela erram sem objetivo, sem direção, uma vez que perderam contato com o espírito do Judaísmo. O artista Ben-Uri é um verdadeiro artista porque sua vocação artística é colocada a serviço da Arca. Sua vocação artística traz a marca da santidade e serve ao objetivo mais elevado.
E assim se abre diante de nós aquela mesma dimensão nas obras de Agnon em cujo âmbito são retratadas situações, tipos e imagens que atestam, da forma mais aguda, a gravidade do problema religioso em suas duas formas desconcertantes: a dissociação da vida religiosa da fonte da criação, e a dissociação da vida moderna de seu centro, de sua direção, de seu significado. É essa a realidade nas histórias de Um Livro de Acontecimentos, numa estória como A Carta e em Sefer Hamediná (O Livro do Estado).
Resumindo: o desejo de criação artística determina, em grande medida, o caráter do problema religioso nas histórias de Agnon.
BARUCH KURZWEILL O fato de a Academia Sueca haver concedido a sua famosa distinção a dois autores judeus, um de língua hebraica e outro de língua alemã, encerra evidentemente uma homenagem ao conjunto da criação literária que o povo de Israel, já históricamente cognominado o povo do Livro, conseguiu realizar nas difíceis, quando não terríveis condições de sua trajetória através das idades e das culturas. Caberia talvez analisar quais os fatões e as peculiaridades que lhe permitiram contribuir com um elemento todo seu em meios tão diversos, engendrando, pelo contato de suas sementes com diferentes terras, uma multiplicidade criativa que se expressou, por exemplo, com um Heine, um Wasserman na Alemanha, um Schnitzler, um Kafka, no antigo império austro-húngaro, um Babel, um Mandelstam e um Ehrenburg, na Rússia e, mais recentemente, um Bassani na Itália, um Gary, um Ikor, um Memmi, um Schwartz-Bart na França e um Bellow, um Malamud nos Estados Unidos, para citar apenas alguns. Tal análise nos permitiria compreender melhor, parece-nos, por que se pode até certo ponto com legitimidade, e sem recorrer a conceitos como atavismo, raça, missão e substância espiritual, reunir sob um denominador comum, como fêz a Academia Sueca, autores de origem, formação e idioma tão diversos entre si quanto Nelly Sachs e Sch. I. Agnon. Mas o nosso tema, e o propósito do presente ato comemorativo, é mais restrito, circunscrevendo-se ao es Em Jerusalém havia uma velha. Uma velhinha tão bela como jamais viram em suas vidas. Era caridosa e devota, inteligente e sábia, humilde e graciosa. Seus olhos irradiavam indulgência e misericórdia, e as rugas de seu rosto, bênção e paz. Pudessem as mulheres ser comparadas aos anjos, eu a compararia a um anjo do Senhor. E se isso não bastasse, era ainda ágil como uma mocinha. Não fôssem seus trajes de avó, a ninguém ocorreria que já era uma anciã.
Antes de deixar Jerusalém, eu não sabia de sua existência, e somente depois de meu regresso a Jerusalém é que vim a conhecê-la. Certamente perguntarão: Por quê? Eu lhes responderei: E por que não a conhecem vocês, agora? Assim é a ordem do mundo: uma pessoa conhece outra quando o destino o quer, e do alto já está designado quando, onde e como. E sabem em que ensejo travamos conhecimento? Certa vez eu caminhava pela Cidade Velha, ia visitar um sábio dentre os sábios de Jerusalém, que morava perto do Muro das Lamentações. Procurei e procurei pela casa, mas não houve jeito de encontrá-la. Foi então que deparei uma mulher com uma lata d'água na mão e lhe perguntei.
Ela me respondeu: Venha e lhe mostrarei. Disse-lhe então: Não precisa dar-se ao trabalho; indique-me apenas o lugar que irei sozinho. Ela sorriu: Que lhe importa se a uma velha fôr dado o mérito de mais uma boa ação? — Se é uma boa ação, redargúi, pois não, venha, mas permita então que eu carregue a lata. Seu sorriso alargou-se: Como? Quer então diminuir minha mitvá? — Deus me livre!, repliquei. Não desejo de modo algum minorar o mérito de sua boa ação, mas poupar-lhe o incômodo. — Não é um incômodo, contestou, porém um privilégio do Santíssimo, que deu forças às criaturas para satisfazerem suas necessidades com as próprias mãos.
E seguimos juntos de viela em viela, saltamos sobre pedras, desviamo-nos de camelos, burricos, aguadeiros, vagabundos e diferentes tipos de gente à procura de novidade. Afinal, minha acompanhante se deteve e disse: Eis a casa que o senhor procura. Disse-lhe schalom e entrei.
Encontrei o homem em casa, sentado à sua mesa. Não sei se me reconheceu, ou se não me reconheceu. Estava entretido com algo raro e não que descobrira em seus estudos e tão logo entrei me revelou imediatamente tudo sobre essa inovação. Desta primeira, passou a uma segunda e a uma terceira, e assim o tempo todo.
Ao sair, quis perguntar-lhe: Essa velhinha que me indicou o caminho, quem é ela? Sua face radia paz e a ternura de sua voz encanta. Mas é quase impossível interromper um sábio quando nos revela seus achados.
Alguns dias depois, voltei à cidade, por causa de uma velha, a viúva de um rabino. Pois, antes de regressar a Jerusalém, eu prometera a seu neto visitá-la, a fim de saber como passava.
Era o início da estação das chuvas. Já começara a chover e o sol estava encerrado entre nuvens. Fora de Israel, um dia assim é considerado primaveril, mas Jerusalém é mimada com sete ou oito meses ensolarados durante o ano, e um dia em que o sol não brilha com tôda a sua intensidade é tido por hibernal, e as pessoas ficam recolhidas em suas casas e nos pátios, onde quer que haja uma ponta de teto sobre a cabeça.
Caminhava ao acaso, sorvendo o aroma da chuva que caía alegremente, que se envolvia em bruma multicar, burburinhava entre as pedras da rua, tamborilava nas paredes, bailava nos telhados, gotejava e formava incessantes poças d'água, às vezes turvas, às vezes translúcidas, fugindo ao sol, que forçava passagem através das nuvens para ver se o tempo melhorara; pois em Jerusalém, mesmo num dia de chuva, o sol procura realizar a sua tarefa.
Penetrei entre as lojinhas abobadadas dos ourives, depois passei à rua dos especieiros, dos sapateiros, dos tecedores de mantas, dos confeiteiros, até que desemboquei na Rua dos Judeus. Cobertos de farrapos, sentavam-se aí os mendigos que, na preguiça de tirar as mãos do interior das roupas, acompanhavam com olhar furibundo todo transeunte que, por seu turno, não metesse a mão no bólso. Aconteceu estar eu com a carteira cheia de miúdo, de modo que ia de mendigo em mendigo e distribuía a cada qual uma esmola. Por fim, perguntei-lhes onde morava a rebetzin e eles me mostraram.
Embarafustei por um daqueles pátios que, só de vê-los, a gente se pergunta se ainda é possível que alguém o habite, subi seis ou sete degraus quebrados e alcancei uma porta empenada. Fora, choquei-me com um gato e dentro, com um monte de lixo. Devido à neblina, não percebi ninguém, apenas aos meus ouvidos chegou uma voz irritada e cava: Quem é? Levantei os olhos e deparei uma cama de ferro com uma montanha de travesseiros e cobertores e, no meio da montanha, uma assustada e irada velha.
Cumprimentei-a, contei-lhe que vinha do estrangeiro e lhe trazia lembranças do neto. Ela retirou a mão de sob o acolchoado, puxou a coberta até o pescoço e perguntou quantas casas ele possuía, se dispunha de criadas para servi-lo e se contava belos tapetões nos aposentos. Por fim suspirou e disse: "Este frio está acabando comigo. Vendo como o frio a martirizava, ocorreu-me que uma estufa a querosene lhe faria bem.
Permiti-me, pois, recorrer a um pequeno subterfúgio e lhe disse: Seu neto enviou-lhe algum dinheiro para comprar uma estufa, uma estufa portátil. É fácil achar por aqui uma estufa dessas. A gente põe querosene, acende a mecha, e elas queimam e esquentam. Eis o dinheiro, acrescentei, tirando a carteira. Replicou-me amargamente: Como posso eu sair à procura de estufas, por acaso tenho pernas? Tenho blocos de gelo e não pernas!
O frio ainda me deixará louca, se é que não vai me levar ao Monte das Oliveiras. E lá no estrangeiro ainda pensam que a Terra de Israel é um país quente. Quente sim, mas para os pecadores do inferno. — Não se preocupe, tentei animá-la; amanhã, creio eu, o sol estará brilhando e o frio terá passado. — Até o consolo chegar, redargiuu, a alma há de partir. Prometi-lhe: Em duas ou três horas, vou enviar-lhe uma estufa. Ela enrodilhou-se nas cobertas, como se quisesse mostrar a seu pretenso benfeitor que não confiava demais em seus favores.
Pedi licença para retirar-me, dirigi-me à Rua Jafa, entrei numa loja de ferragens, comprei uma estufa a querosene, a melhor que havia, e mandei entregá-la à velha rebetzin. Uma hora mais tarde, retornei à casa dela, julgando que a anciã talvez não soubesse manejar uma estufa portátil, e, neste caso, ensinar-lhe-ia a sapiência. Disse de mim para comigo: Não se deve esperar qualquer expressão de agradecimento. Nem tôdas as velhas são iguais. Aquela que me indicou a casa do hahan é tão gentil com todo mundo, enquanto esta, a quem enviei a estufa, não faz cara amável nem mesmo a uma pessoa que deseja prestar-lhe um favor.
E aqui devo fazer um pequeno reparo. Longe de mim a idéia de elogiar a primeira e censurar a segunda, e não é meu intuito falar em geral da cidade e seus habitantes. O olhar de um homem é demasiado circunscrito para que possa abranger a cidade inteira do Santíssimo, louvado seja. Se relato aqui a estória da rebetzin é apenas porque, indo à sua casa, encontrei desta vez a velhinha.
Afastei-me para dar-lhe passagem. Ela deteve-se e perguntou como é que eu ia passando, como se fosse um parente seu. Estaquei, pois, admirado: tratar-se-ia porventura de uma da-quelas velhas que eu conhecera em Jerusalém antes de viajar para o estrangeiro? Mas quase tôdas haviam morrido de fome durante a guerra e se alguma sobrevivera, eu, entrementes, mudara muito. Quando partira de Jerusalém, era rapaz e agora, após alguns anos no exterior, já sou homem idoso; como foi então que ela me reconheceu?
Percebeu ela a minha surprêsa. Riu e disse: Vejo que não se lembra de mim. O senhor é a pessoa que pretendeu carregar minha lata d'água quando se dirigia à casa de fulano. — Então foi a senhora quem me ensinou o caminho?, lembrei-me; e vejam, agora estou parado, como se não a conhecesse absolutamente. Ela riu: Acaso é obrigado a reconhecer tôdas as velhas de Jerusalém? — E como foi que a senhora me reconheceu?, indaguei.
Ela explicou: Como os olhos de Jerusalém atentam por Israel inteiro, qualquer judeu que venha fica gravado em nosso coração e não o esquecemos. — Hoje é um dia frio, observei, um dia de chuva e vento, e eu a estou prendendo aqui fora. — Já vimos frios mais intensos em Jerusalém, respondeu ela em tom amigável. Quanto à chuva e ao vento, costumamos dizer: que o vento sopre e a chuva caia... O senhor praticou uma grande mitzvá, dando vida a velhos ossos.
A estufa que mandou à rebetzin lhe aquece a alma, Baixei a cabeça como alguém que se sente envergonhado quando o elogiam. Ela percebeu e disse: As boas ações não devem envergonhar. Os judeus de antes praticavam-nas em grande número, por isso não era preciso proclamá-las; nós, porém, realizamos poucas; devemos, pois, celebrá-las, para que os outros ouçam e tomem exemplo. Agora, meu filho, vá visitar a rebetzin e verá como é acalentadora a mitzvá que o senhor realizou.
Entrei na casa da rebetzin e a encontrei sentada junto à estufa acesa; das aberturas desta gotejavam pingos de luz, o quarto estava quente, e um gato mirrado descansava em seu regaço, e enquanto ela lançava um olhar à mecha acesa, falava ao gato, dizendo: Parece que você se delicia com o calor mais do que eu.
Disse-lhe: Pelo que vejo, a estufa queima muito bem. A senhora está satisfeita com ela? — E se eu estiver satisfeita, respondeu, isso porventura diminuirá o seu cheiro ou aumentará o seu calor? Estufa eu tive antigamente, em minha terra: ficava acesa desde o fim de Sucot até a véspera de Pessach, e o calor que espalhava era como o do sol de verão, no mês de Tamuz; era realmente um prazer para a alma e não como essas estufinhas de hoje que aquecem por um instante. Na verdade não se pode pedir aos inventores modernos que façam algo acaba; basta-lhes pretender que o fazem. Foi o que eu disse à gente de nossa cidade, quando meu marido, o rabino, interceda ele por mim!, veio a falecer e eles arrumaram não rabino. Perguntei-lhes: O que querem, que ele seja talvez como o extinto rabino?
Ainda bem que o homem não está dando aborrecimentos a vocês. O mesmo também disse às minhas vizinhas, quando vieram ver a estufa que meu neto me enviou por seu intermédio. Disse a elas: Conforme a geração é a estufa, conforme a estufa é a geração. O que foi que o meu neto me escreveu? Não lhe escreveu nada? A mim tampouco escreve uma palavra.
Ele está pensando, naturalmente, que depois de mandar este pedacinho de estufa já cumpriu sua obrigação.
Ao sair da casa da rebetzin, disse a mim mesmo: Eu também julgo cumprida a minha obrigação, mandando-lhe um pedacinho de estufa, e não preciso mais voltar à casa dela. Mas, afinal, tornei a visitá-la, por causa daquela adorável velhinha, pois não perfizera ainda tôdas as visitas que eu estava destinado a fazer-lhe.
E mais uma vez devo reafirmar: Não é minha intenção relatar tudo o que me aconteceu naqueles dias. Um homem passa por muita coisa na vida. Fôsse eu contar tudo, não haveria língua que chegasse. A respeito da velhinha, entretanto, vale a pena contar tudo.
Na véspera da Lua Nova, fui ao Muro das Lamentações, segundo o costume das gentes de Jerusalém, que, nas vésperas de Rosch Hodesch, vão orar junto ao Muro das Lamentações.
O inverno quase findara e os primeiros brotos da primavera já despontavam. A terra despertava de seu sono, o sol sorria a tudo e a todos. A cidade inteira, em tódica sua grandeza, banhava-se em luz. Não fôssem as diferentes aflições que nos sobrevieram, estaríamos alegres! Ai, meu Deus, quantos tormentos e flagelos tivemos de suportar; mal nos livrávamos de um, assaltava-nos outro.
Da Porta de Jafa, em todo o percurso até o Muro das Lamentações, não cessavam de passar homens e mulheres de tôdas as comunidades de Jerusalém, que afluíam juntamente com os recém-chegados, a quem o Onipresente trouxera ao lugar pró , mas que não haviam encontrado ainda o devido lugar.
espaço defronte ao Muro, sentados em guaritas, policiais da Potência Mandatária vigiavam para que ninguém mais, exceto êles, guardassem os suplicantes. Vendo isso, nossos agitadores agitavam. Os fiéis curvavam-se e comprimiam-se contra as pedras do Muro. Uns choravam, outros se pasmavam. E tu, ó Deus, até quando? Já descemos ao último degrau e ainda retardas a nossa libertação!
Arrumei para mim um lugarzinho junto ao Muro. Fiquei ali, ora entre os suplicantes, ora entre os pasmados. Estava pasmado com as nações do mundo. Não é bastante que nos afugentem de todos os países, e ainda não nos deixam em paz com nossa casa.
E enquanto eu estava assim parado, um guarda da Polícia Mandatária me expulsou do meu lugar, empurrando-me com o cabo de seu chicote. O que o teria transtornado tanto para deixá-lo tão enraivecido? Uma velha enferma trouxera um escabelo para sentar-se nele.
O policial saltou e largou um pontapé no banquinho, derrubou a velha e tirou-lhe o escabelo, porque ela transgredira a lei, feita pelos legisladores do Mandato, que proibia o suplicante de levar o seu banquinho ao Muro. Os fiéis viram isso e calaram-se, pois quem pode discutir com o mais forte? Apareceu então aquela velhinha minha conhe da e o encarou. O guarda baixou os olhos e devolveu o es abelo.
Acerquet-me dela e lhe disse: Os seus olhos são mais fortes do que tódas as promessas da Inglaterra, pois a Inglaterra nos concedeu a Declaração Balfour, mas nos envia seus funcionários para anulá-la, enquanto a senhora, minha velhinha, apenas pôs os olhos naquele malvado e reduziu a nada os seus maus desígnios. — Não diga isso, replicou-me, trata-se de um bom gentio, que viu minha angústia e devolveu à pobre mulher seu escabelo. O senhor já fez a prece da tarde? Pergunto-lhe porque, se estiver desocupado, praticarei em sua companhia o mandamento da visitação aos doentes. A rebetzin, viva ela muitos anos, adoeceu.
Agora, está realmente enferma. Se quiser, venha comigo, que lhe indicarei um caminho muito curto. Não resisti e acompanhei-a.
Volteamos, assim, de viela em viela, de pátio em pátio, e a todo passo ela se detinha para oferecer um torrão de açúcar a uma criança, uma moeda a um pobre, ou para interrogar algum homem sobre a saúde da espôsa ou alguma mulher sobre a saúde do marido. Disse-lhe: Já que a senhora pergunta pela saúde de todo mundo, permita-me perguntar-lhe por sua saúde? — Louvado seja Ele e louvado seja o Seu Nome, redarguiu ela, Ele nada me deixa faltar. O Santíssimo dá a Suas criaturas segundo a necessidade de cada uma, e eu também estou incluída no rol de Suas criaturas. Além do mais, devo agradecer a Ele por haver dobrado hoje o meu quinhão. Perguntei-lhe: Como assim? Ela me contestou: Todo santo dia completo um "dia" de leitura dos Salmos e hoje completei dois dias. Enquanto falava, seu rosto se entristeceu.
Disse-lhe: Sua alegria se dissipou. Calou-se por um instante e por fim disse: Sim, meu filho, eu estava contente e agora não estou mais. E, ao falar assim, sua face tornou a resplandecer. Ela ergueu os olhos para o alto e disse: Bendito seja Deus, que tirou minha tristeza. Indaguei então: Por que é que estive alegre, depois triste e agora voltou a alegrar-se? — Se não se zangar, redarguiu em tom carinhoso, lhe direi que não é assim que deveria perguntar, mas antes: Como foi que mereceu que Deus lhe tirasse a tristeza? Pois aos olhos do Santíssimo tudo é igual, a tristeza e a alegria. — Zangar-me, disse, quando está me ensinando como uma pessoa deve falar!
Não está claramente escrito: “Feliz o homem que não Te esquecer!” — O senhor é um bom homem e me dedicou um bom versículo; não deixarei também de retribuir-lhe com algo de bom. Indagou por que estive alegre, depois triste e de novo alegre. Por certo sabe, como eu, que todos os atos do homem, do berço ao túmulo, lhe são de antemão determinados, inclusive o número de vezes que lhe caberá recitar os salmos. Mas está em suas mãos a escolha de quantos versos deve pronunciar em cada dia. Existem homens a quem é dada a graça de recitar o Saltério todo, e outros só conseguem ler um só dos cinco livros ou um só “dia”. Quanto a mim, estabeleci a regra de dizer cada dia um “dia”. Hoje, fui atraída pelos versos e recitei dois “dias”.
Quando me dei conta do fato, fiquei triste, pois é possível que eu já seja dispensável deste mundo e julguem chegado o momento de livrar-se de mim, e me apressem a terminar minha parte e completar minha porção; ainda assim é bom agradecer a Deus, pois se morrer não poderei recitar um salmo sequer, nem mesmo uma sílaba. Vendo o meu pesar, o Santíssimo, louvado seja, concedeu-me a graça de me dar a conhecer que esta é a Sua vontade. E se o Nome deseja que eu morra, quem sou eu para me contratar? E foi assim que no mesmo instante Deus tirou de mim a tristeza. Bendito seja Ele e bendito seja o Seu santo Nome!
Relanceei-a e admirei-me: Como é possível chegar a tanta submissão e humildade? Pensei nas antigas gerações, tão cheias de boas qualidades. Conversei com ela sobre essas gerações passadas e observei-lhe: Mais do que eu lhe disse, a senhora certamente viu com seus próprios olhos. — Quando são prolongados os dias e os anos de uma criatura, replicou, recebe ela o privilégio de ver muitas coisas, boas e mesmo melhores.
Pedi-lhe: Conte-me algumas das coisas boas. A anciã se calou por alguns momentos e disse: Com o que hei de começar? Começarei por minha própria infância. Quando eu era criança, era muito tagarela.
Da hora de despertar até a hora de dormir, minha bóca não parava de parolar. Nas vizinhanças, morava um velho. Um dia ele observou aos que se alegravam com a minha parlapatice: É pena esta criança que desperdiça na infância todas as suas palavras, pois o que lhe restará para a velhice? Isso me atemorizou e tive medo de ficar muda de um dia para o outro. Com o tempo, compreendi o que o velho queria dizer: o homem não deve esbanjar em poucos dias o que lhe foi concedido para a vida inteira. Acostumei-me a ponderar cada térmo, para ver se devia ser dito, e tomei por praxe falar pouco. E como tomei por praxe falar pouco, conservei comigo todo um tesouro de palavras. Meus anos foram prolongados até que eu possa esgotar tódas as palavras a mim consignadas.
E agora que me resta apenas um punhado de térmos, pede-me que as gaste. Se eu gastá-las, estarei reduzindo os meus dias. — Certamente não foi esta a minha intenção, afirmei. Mas veja, andamos e andamos, e ainda não chegamos à casa da rebetzin. — Deve lembrar-se dos pátios que a geni costumava atravessar para cortar caminho, disse a velha; e a que a maior parte da cidade é habitada por árabes, precisamos evitá-los e isto nos obriga a encompridar o trajeto.
Chegamos a um pátio. Perguntou ela: Está vendo éste pátio? Aqui moravam quarenta famílias judias e havia duas sinagogas onde estudavam e oravam dia e noite, mas elas o abandonaram, e vieram os árabes e dêle se apossaram. Chegamos a um café. Disse-me: Está vendo ésse prédio? Aqui havia uma grande éschivá onde os estudiosos da Torá costumavam passar os dias no estudo; mas éles a abandonaram, e vieram os árabes e dela se apossaram. Chegamos a uma cocheira de burros. Ela inquiriu: Está vendo essa cocheira?
Aqui havia uma cozinha onde os pobres entravam famintos e saíam saciados; mas éles a abandonaram, e vieram os árabes e dela se apossaram. Nessas casas onde a Torá, a caridade e a prece nunca cessavam, árabes e burros agora se movimentam. Agora, meu filho, chegamos ao pátio da rebetzin. Entre, que entrarei depois. A pobre criatura anda com a imaginação tão cheia de ilusórios bens do estrangeiro que não enxerga o bem verdadeiro. — E qual é o bem verdadeiro?, indaguei. A anciã sorriu e falou: É estranho que pergunte isso, meu filho, pois não conhece a passagem: “Feliz é quem Tu escolheste e aproximaste a fim de habitar os teus pátios”, e quais são os pátios do Santíssimo, louvado seja?
Os de nosso Deus em meio de Jerusalém. É costume das pessoas, quando mencionam Jer salém, acrescentar: a Cidade Santa; mas no tocante a mim, quando cito Jerusalém, não acrescento palavra, pois a santidade dela está em seu nome, em seu próprio nome. Suba, meu filho, suba e não vá tropeçar nas escadas. Comuniquei inúmeras vezes ao provedor da Kolel que essas escadas necessitam de reparo, mas qual a resposta que recebo?
Que o pátio é velho, está caindo aos pedaços, não vale a pena desperdiçar nêle um vintém. É assim que acabam ruindo as casas de Israel até que chegam os ismaelitas e as ocupam. Casas que foram construídas com lágrimas pelos pais, são desertadas pelos filhos. Mas aqui estou eu a tagarelar de novo e a apressar o meu fim.
Entrei na morada da rebetzin e a encontrei deitada na cama. Tinha a cabeça envolta em panos, uma compressa aplicada ao pescoço, e tossia tão fortemente que até os vidros de remédio dispostos junto à cama estremeciam ao ruído. Perguntei-lhe: A senhora está doente, rebetzin? Ela gemeu profundamente e seus olhos marejaram-se de lágrimas. Quis reconfortá-la, mas não achei palavras adequadas. Baixei os olhos e murmurei: Doente e sozinha. Gemendo, respondeu: Estou doente, na verdade muito doente.
Não há ninguém no mundo tão doente como eu. Mas não estou sozinha. Mesmo aqui em Jerusalém, onde não me conhecem e não sabem como eu era respeitada em minha cidade, mesmo aqui aparece de vez em quando uma mulher, trazendo-me uma colher de caldo e dando-me de comer na cama. Que notícias tem de meu neto? Com certeza está zangado comigo porque não lhe escrevi agradecendo a estufa. Mas diga o senhor mesmo se posso sair e comprar tinta, caneta e papel, e escrever cartas.
Mal consigo levar à boca uma colherada de alimento. Estou admirada que Tili não tenha chegado ainda.
Informe i-lhe: Se se refere àquela velhinha encantadora, ela me afirmou que logo mais estará aqui. — Se é encantadora, não sei, respondeu a rebetzin, mas que pratica boas ações, isto tenho certeza. Veja quantas mulheres piedosas existem em Jerusalém, tôdas zumbindo como abelhas preces e orações. Acha que uma única aparece para me perguntar: Rebetzin, não está precisando de alguma coisa? Ai, minha cabeça, minha cabeça, se as dores de meu coração não me levarem deste mundo, as dores de cabeça se encarregarão de fazê-lo.
Disse-lhe: Vejo que lhe é difícil falar. — O senhor diz que me é difícil falar, retrucou, e lhe digo que eu tôda sou difícil para mim. Até o gato já sente isto e não aparece mais aqui. E ainda há quem diga que os gatos costumam prender-se à sua casa.
Naturalmente, os ratos de meus vizinhos lhe sabem mais do que tôdas as iguarias que lhe dou. O que é que eu queria dizer? Sempre esqueço o que eu quero dizer. Tili não é assim. Ela, que tem sobre os ombros montes e montes de anos, continua com todos os sentidos perfeitos. E a sua idade é o dóbo da minha. Se meu pai, de abençoada e justa memória, estivesse vivo, pareceria um bebê comparado a ela. — Quem é essa Tili? quis saber. A rebetzin respondeu: Ora essa, não foi o senhor mesmo que a mencionou há pouco? Hoje em dia ninguém mais conhece Tili; antigamente, porém, todo mundo conhecia Tili, pois era muito rica e possuía muitos negócios.
Quando renunciou aos negócios e veio para Jerusalém, trouxe consigo vários barris repletos de ouro, e se não foram barris, trouxe certamente um baú cheio de ouro. Minhas vizinhas contaram-me que suas mães lhe haviam contado que, quando Tili chegou a Jerusalém, tudo o que era gente importante de Jerusalém a cortejava. Uns para si próprios e outros para os filhos. Mas ela recusou a todos e continuou viúva. De início, uma viúva rica, depois uma viúva abastada e, por fim, uma simples velha.
Observei: Quando se olha para Tili, tem-se a impressão de que ela jamais conheceu uma hora difícil na vida. A rebetzin riu e replicou: Diz o senhor que ela jamais conheceu uma hora difícil na vida, e eu lhe digo que jamais conheceu uma hora boa na vida. Nem a meus inimigos, desejaria as aflições que Tili padeceu. O senhor acha que, pelo fato de ela não necessitar dos favores de alguma Kolel, sua vida é abençoada, e eu sou de opinião que mesmo o mendigo de porta em porta não trocaria com ela suas desventuras. Ai, minhas dores, minhas dores, tento distrair-me e esquecê-las, mas elas não me esquecem.
Vi que a rebetzin sabia mais do que estava contando, mas, como eu tinha certeza de que, se a interrogasse, não me responderia, levantei-me para ir embora. Ela me disse: O limpador de chaminé nem sequer entrou na chaminé e já está com a cara suja. O senhor ainda nem bem sentou e já se levantou para ir. Por que tanta pressa? — Se deseja que eu fique, ficarei, dispus-me. Ela se calou e não respondeu nada.
Comecei a falar-lhe de Tili e disse: Talvez a senhora queira contar-me algo a respeito dela. — E se eu lhe contar, retrucou, isto aliviará a mim ou aliviará a ela? Não gosto de tódica essa narração de estórias. Juntam uma teia de aranha com outra teia de aranha e dizem: Que magnífico salão. Mas uma coisa vou lhe dizer, o Santíssimo, louvado seja, apiedou-se daquele santo e por isso introduziu um mau espírito naquela apóstata, extinto seja o seu nome. Por que está me olhando assim?
Não compreende a língua idíche? — A língua eu compreendo, disse, mas a sua linguagem, rebetzin, não estou compreendendo. Quem é esse santo, e quem é a apóstata que a senhora amaldiçoou? — Talvez eu deva abençoá-la, replicou a rebetzin, talvez deva dizer: Você procedeu muito bem, renegada, trocando um dinar de ouro por uma moedinha de cobre gasta. O senhor está me encarando de vôvo como se eu falasse turco. Já ouviu dizer, por certo, que meu marido, de abençoada memória, era rabino, razão pela qual me chamam rebetzin, mas o que não lhe disseram, sem dúvida, é que também meu pai era rabino, um rabino diante do qual todos os outros rabinos eram crianças de peito. E quando digo rabinos, refiro-me a verdadeiros rabinos, e não a todos esses que aqui envergam o hábito rabínico e se intitulam rabinos. Ó mundo, mundo, você é falso e tudo o que você contém é vão e falso. Mas o meu pai, de justa e abençoada lembrança, era um rabino de verdade, já desde a infância, e por isso todos os casamenteiros do país estavam ansiosos por casá-lo.
E havia uma viúva rica. E se eu lhe digo rica, pode crer que realmente rica. A mulher tinha uma filha única, tomara que não a tivesse! Pois bem, ela pegou um barril cheio de dinares de ouro e convocou os casamenteiros: Se vocês arrumarem efe partido para a minha filha, darei ao noivo efe barril, e se for pouco, acrescentarei ainda mais.
Mas aquela rapariga não era digna daquele santo tzadik, porque ele era um tzadik e ela, possa ela ser danada, uma renegada, tal como o seu fim provou sobre o seu coméo, que fugiu e entrou num convento, mudando de religião. E quando foi que fugiu? Justamente na hora em que a conduziam ao pálido nupcial. Sua mãe gastou metade da fortuna para tirá-la de lá. Até ao Imperador chegou a pobre mulher, e nem ele pôde ajudá-la de algum modo, pois quem ingressa num convento nunca mais sai de lá. E sabe quem é aquela renegada?
A filha de... Psi! Ela vem vindo.
Tili entrou e trazia na mão uma panela de comida. Avistando-me, disse: O senhor está aqui? Fique sentado, meu amigo, fique sentado. Visitar o enfermo é grande mitzvá.
Rebetzin, sua aparência está cada vez melhor. A salvação do Nome é como o piscar de um olho. O Santo Nome, louvado seja, envia Sua cura ininterruptamente, a cada instante. Eu lhe trouxe um pouco de caldo, uma colherada.
Levante a cabeça, querida, que vou acertar seu travesseiro. Assim, assim, minha querida. É pena, meu filho, que não habite a cidade e não possa ver como a nossa rebetzin, viva ela muitos anos, está melhorando de hora para hora.
Indaguei: E eu não moro em Jerusalém? Acaso N vá não é Jerusalém? — Deus me livre!, contestou disse isso? Ao contrário, Jerusalém está destinada-se, no futuro, para todos os lados, até Damasco, que viram Jerusalém antiga, tôda encerrada nas muralhas, não se habituam a ver tudo o que é construído fora das muralhas de Jerusalém como se fosse a própria Jerusalém. Tôda a Terra de Israel é santa, para não mencionar os arredores de Jerusalém, mas no interior das muralhas essa santidade é ainda maior. Eu sei, meu filho, que não disse nada que não soubesse melhor do que eu, mas então por que foi que eu disse tudo isso? Para contar os louvores de Jerusalém.
Notei nos olhos da rebetzin que estava sentida porque Tili conversava comigo e não com ela. Pedi, pois, licença e retirei-me.
Vários assuntos mantiveram-me ocupado e não voltei à Cidade Velha. Depois veio a questão dos turistas. Pois vocês conhecem os turistas, e sabem como antes se riam de nós e do país; mas, agora que o Onipresente nos acomodou um pouco melhor no país, também começaram a aparecer para dar uma espiada. E quando aparecem, encaram-nos como se o Senhor nos houvesse criado tão-sómente para servi-los.
Entretanto, há algo de bom com os turistas: é que, mostrando-lhes as coisas, também as vemos. Uma ou duas vezes, ao acompanhá-los à Cidade Velha para mostrar-lhes o Muro das Lamentações, cruzei com Tili. Se não me engano, algo havia mudado nela, pois costumava sair sempre sem bengala, mas agora andava apoiada numa. Por causa dos turistas, não me detive. Afinal de contas, tinham vindo para ver o país e não uma velha que não constava no programa déles.
Quando os turistas deixaram Jerusalém, senti-me como alguém que não sabe o que fazer. Tentei retomar o meu trabalho, mas não consegui. Ergui-me, pois, e fui à Cidade Velha e tornei a percorrer todos os lugares que eu mostrara aos turistas.
O que vi e o que não vi! O Altíssimo que, em Sua infinita bondade, renova todo dia a Sua obra da Criação, renova também a toda hora a Sua Cidade. Novas construções não são construídas, novas plantações não são plantadas, mas Jerusalém mesma está sempre renovando-se. Toda vez que entro na Cidade, ela me parece nova. Não sei no que consiste sua novidade. Que venham os grandes aclaradores e no-lo esclareçam.
Aquêle haham meu conhecido encontrou-me, arrastou-me à sua casa e expôs-me todos os seus mais recentes achados. Ficamos sentados, eu perguntando e ele respondendo, eu contradizendo e ele demonstrando, eu obscurecendo e ele explicando. Como é bom e agradável sentar-se diante de um sábio dos sábios de Jerusalém e estudar a Torá. Sua casa é modesta e sua mobília é modesta, porém sua sabedoria expande-se cada vez mais, desdobra-se como as cões que, através da janela, se divisam sobre as montanhas de Jerusalém. Desoladas encontram-se as montanhas de Jerusalém, sem palácios ou castelos sobre elas. Desde o dia em que fomos expulsos de nossa terra, as nações têm vindo, uma após a outra; destroem tudo e depois se vão. No entanto, as montanhas alçam-se em tôda a sua majestade, enfeitadas com bordados multicores e glorificadas com inúmeros ornamentos e entre elas o Monte das Oliveiras, não mais recoberto de bosques vicejantes, porém amortalhado nos túmulos dos justos, que se entregaram totalmente ao país, na vida e na morte.
Eu já estava de partida, quando entrou a dona da casa e disse ao marido: Você se esqueceu do que prometeu a Tili. — É extraordinário, assentiu ele; desde que conheço Tehila, nunca me pediu coisa alguma e nunca ouvi dizer que houvesse pedido algo a pessoa alguma. E agora ela me pediu para dizer-lhe que gostaria muito de vê-lo. — O senhor se refere, indaguei, àquela velhinha que me indicou outro dia a sua casa? Se não estou equivocado, não é este o nome pelo qual a chamam. — Tehila, explicou ele, é o nome hebraico de Tili. Daí o senhor pode inferir que, há quatro ou cinco gerações, nossos pais já davam às suas filhas nomes que soam como se fôssem inventados hoje.
O mesmo sucede com o nome de minha mulher, Tehiya, o que sem dúvida lhe parecerá coisa inventada pela geração da Revivescência, pois éste é o significado de tehiya, quando, na verdade, procede dos sábios, os Híuschei Harim, que instruíram o pai do avô de minha mulher a fim de que chamasse a filha Tehiya; e minha mulher recebeu o nome dela. — Quatro ou cinco gerações passadas, disse o senhor, observei-lhe, mas a velhinha é tão idosa assim? Ele sorriu e respondeu: Seus anos não estão gravados na face, tampouco costuma contar a sua idade, e se a coisa não lhe houvesse escapado da língua, de nada saberíamos. Mas aconteceu que Tehila veio cumprimentar-nos pelo casamento de nosso filho, e ela o abençoou e à sua espôsa, fazendo votos para que alcançassem a idade dela.
Perguntou-lhe meu filho: Que bênção é esta com que a senhora nos abençoou? E ela então lhes respondeu: Tenho noventa mais onze anos de idade. Desde então já decorreram três anos. Deve contar, pois, atualmente, noventa mais quatorze, isto é, cento e quatro anos.
Observei: Já que o senhor a mencionou, diga-me quem é ela. — O que é que se pode contar a seu respeito? perguntou o sábio. É uma santa, uma santa, pura e simplesmente. E se tiver oportunidade de ir vê-la, não deixe de vê-la. Duvido, porém, que a encontre em casa. Ou ela está visitando os enfermos, ou cuidando dos incuráveis ou cumprindo algum outro mandamento com o qual ninguém se incomoda. Mas talvez consiga encontrá-la em casa, pois entre uma boa ação e outra ela volta para lá e fica remendando meias e consertando roupa para os órfãos pobres. Antigamente, quando era rica, praticava caridade com o seu dinheiro e agora, que nada lhe sobrou exceto alguns minguados níqueis para a sua parca alimentação, pratica a caridade com o seu trabalho.
E o dito haham conduziu-me até a porta de Tehila. No trajeto, tornou a explanar-me suas inovações. Viu que eu não o escutava. Sorriu e disse: Desde o momento em que lembrei o nome de Tehila, o senhor esqueceu tudo o mais. — Se quiser, conte-me algo a respeito de Tehila, solicitei-lhe. Respondeu-me: O que ela é agora, já lhe relatei, e o que ela foi no estrangeiro, nada sei, a não ser o que todos sabem: que era realmente muito rica e dirigia grandes negócios, mas no fim seus filhos morreram e o marido também, então ela foi e abandonou todos os negócios e subiu a Jerusalém. Minha mãe, a paz esteja com ela, costumava afirmar: Quando vejo Tehila, vejo que há desgraça maior do que a viuvez e a perda dos filhos. Que desgraça foi esta, minha mãe nunca me revelou, de modo que não sei qual seja e tampouco jamais o saberemos, pois a geração que conhecia Tehila no estrangeiro já se extinguiu, e Tehila mesma não é de muito falar.
Mesmo agora, quando sofreu uma mudança e passou a falar mais do que costumava, nada conta a seu próprio respeito. Mas eis que chegamos à casa dela. Duvido que o senhor a encontre em casa, pois, ao entardecer, ela costuma andar pelas escolas e distribuir guloseimas à petizada.
Alguns minutos após eu estava dentro da casa e dei com Tehila sentada junto à mesa e parecia achar-se à minha espera. O quarto era pequeno, de paredes grossas e teto abobadado, como eram os quartos de Jerusalém dos velhos tempos. E não fôsse o pequeno leito a um canto do cômodo e uma jarra de barro sobre a mesa, parecer-me-ia um quarto de orações. Mesmo os poucos objetos, a lâmpada de cobre reluzente, um alguidar de cobre e a menorá ramificada, também de cobre, que pendia do teto, bem como a mesa sobre qual havia um Sidur, um Pentateuco e mais um livro, davam ao aposento algo do encanto de um quarto de orações.
Inclinei a cabeça e disse-lhe: Abençoado seja quem aqui está. Ela respondeu-me: Abençoado seja quem aqui vem. — A senhora vive como filha de rei, observei-lhe. Tôdas as filhas de Israel são filhas de rei, contestou Tehila, e eu, louvado seja o Deus vivo, sou uma filha de Israel. Fəz bem em vir. Desejava vê-lo. E não apenas vê-lo, como também conversar com o senhor. Será que estaria disposto a prestar-me um favor? — Até a metade do reino, disse eu. Redarguiu ela: É bom que tenha mencionado o reino, pois Israel todo é filho de rei e seus atos são atos de realeza. E quando um homem de Israel faz um favor a seu próximo, está praticando um ato de realeza. Sente-se, meu filho, sente-se. É mais agradável conversar sentado.
Não desejo tomar seu tempo. Decerto é homem ocupado e necessita do seu tempo para ganhar o sustento. Mudaram os tempos desde aqueles em que dispúnhamos de tempo à saciedade e éramos felizes em consagrar uma hora supérflua à palestra. Agora, todo mundo vive com pressa, todo mundo se agita e corre. Estão-se acostumando a correr e, se lhes fôr dada a graça, hão de correr ao encontro do Messias. Como vê, meu filho, tornei-me tagarela. Estou esquecendo o conselho daquele ancião que me advertiu para não falar mais do que o necessário.
Sentei-me em face de Tehila e fiquei à espera de que me esclarecesse a razão do convite. E ela, agora que se recordara do conselho do velho, silenciava. Por fim, pôs os olhos em mim, desviou-os e voltou a fitar-me, como alguém que examina o seu mensageiro a fim de verificar se é digno da missão. Ao cabo, começou a falar, e anunciou-me o falecimento da rebezin, que expirara durante a noite, enquanto a sua estufa queimava e o gato se aquecia ao seu calor, até que vieram os carregadores funerários e retiraram o corpo dela e apareceu alguém e levou embora a estufa. Disse ela: Está vendo, meu filho, uma criatura pratica um mandamento e êste, por seu turno, pratica outro. Foi uma mitvá o que fêz com a pobre mulher e a mitvá por si mesma realizou outra mitvá com uma terceira pessoa que também precisava esquentar os ossos na estufa. Encarou-me de vôno e acrescentou: Certamente deve estar surprêsso por ter-lhe dado o incômodo de vir à minha casa. — Ao contrário, assegurei-lhe, isso me apraz. — Se lhe apraz, a mim também apraz.
Apraz-me encontrar alguém disposto a prestar-me um favor, mas qual o seu motivo para aprazer-se? Ela calou-se por alguns minutos e depois prosseguiu: Ouvi dizer que é um homem da pena, isto que se denomina hoje um escritor, e talvez possa emprestar-me sua pena para uma cartinha. Há muitos anos que ando com vontade de escrever uma carta. Se está realmente disposto, queira escrevê-la para mim.
Tirei uma caneta-tinteiro. Ela olhou para a caneta e disse: Carrega consigo sua pena como aquêles que carregam sempre a colher, de modo que, se algo para comer se lhes apresenta, ela esteja pronta. Eu lhe respondi: E a comida está dentro da colher, e expliquei-lhe como a caneta funcionava. Tomou a caneta das mãos e comentou: Afirmou que ela já contém a tinta, mas não vejo uma só gota. Tornei a explicar-lhe. Retrucou: Se é assim não há por que acusar a atual geração de que tôdas as inovações por éles realizadas são apenas para o mal. Pois inventaram uma estufa portátil, inventaram uma pena como esta e talvez tenham inventado outras coisas úteis ao homem. Quanto mais se vive, mais se aprende. De qualquer maneira, tome êste cálamo que eu próprio preparei e molhe-o nesta tinta.
Não duvido de sua caneta, mas quero que a minha carta seja escrita com a minha própria pena. Eis uma folha de papel, papel imperial, que eu guardo desde os dias passados, dos tempos em que se fabricava bom papel. Acha-se em meu poder há mais de setenta anos e ainda está como vôno. Mais uma coisa eu lhe peço, escreva com as letras quadradas do Sidur, ou com as letras da Torá. Pode contar que um escriba, se ainda não lhe foi dado escrever um rôlo da Lei, por certo já escreveu um rôlo de Ester. — Quando eu era menino, contei-lhe escrevi um rôlo de Ester, segundo tôdas as regras. E acredite ou não, todos que o viram e elogiaram. — Embora eu não o tenha visto, respondeu Tehila, presumo que sabe escrever com uma caligrafia perfeita.
Vou preparar-lhe um copo de hissópo e, enquanto isso, irá escrevendo. — Não se dê o incômodo, disse eu, acabo de tomar um. — Neste caso, perguntou, que poderei servir-lhe? Dar-lhe-ei um torrão de açúcar, o senhor pronunciará a bênção e eu responderei além. — Ela tirou um torrão de açúcar e mo ofereceu. Depois aguardou um instante e disse: — Agora, tome o cálamo, molhe-o na tinta e escreva. Eu lhe contarei em idíche e o senhor escreverá na língua sagrada. Ouvi dizer que atualmente ensinam às meninas a falar e a escrever a língua sagrada.
Como vê, meu filho, o Santíssimo, louvado seja, em Sua bondosa graça, governa o Seu mundo, e cada vez melhor, de geração em geração. Quando eu era menina, não era éste o uso. Seja como fôr, compreendo as preces do Ritual, a secção semanal do Pentateuco, os diferentes Salmos e a Ética dos Pais. Aí, meu filho, não recitei hoje o meu dia.
Eu sabia que ela se referia à sua parte diária dos Salmos e lhe redargui: A senhora disse “ai”, quando deveria antes alegrar-se. — Alegrar-me? — Sim, pois foi o Céu que a impediu, a fim de acrescer-lhe um dia de dia. Ela suspirou e disse: Se eu soubesse que o Messias viria amanhã, eu me sentiria feliz em permanecer mais um dia neste mundo. Mas se adiciono meus dias e o Messias tarda e não vem, de que serve minha vida e de que serve a minha alegria. Não vou queixar-me do pês-me viver, então a mim também apraz.
Mas fico perguntando a mim mesma até quando êste feixe de ossos se arrastará pelo mundo. Mulheres mais jovens do que eu receberam a graça de repousar o corpo no Monte das Oliveiras, enquanto eu gasto as minhas pobres pernas até que se desgastem completamente. E não é melhor chegar ao Mundo Superior com os membros perfeitos e devolver o penhor por inteiro?
Não afirmo que se deva aumentar a carne, que é molesta para os carregadores funerários, mas de qualquer forma é mais bonito para o morto se os seus membros se apresentam perfeitos.
Aqui estou a parolar novamente! Mas já não faz diferença. Uma palavra a menos ou uma palavra a mais. Já estou pronta a devolver o senhor a seu dono. Molhe a pena, meu filho, e escreva.
Embebi a pena na tinta, estirei o papel e fiquei à espera de que Tehila me dissesse o que escrever. Ela se achava imersa em seus pensamentos e não deu mais por mim. Permaneci sentado, mirando-a, e meus olhos repararam em cada ruga, em cada dobra de seu rosto.
Por quantas vicissitudes passara! Costumava dizer que vira coisas boas e coisas melhores ainda. Pelo que eu ouvira, as coisas não haviam sido tão boas assim.
Fóra a propósito dela que o hatham comentara: “Os justos pranteiam no coração e regozijam-se em sua face”. Ela se apercebeu de minha presença, voltou a cabeça para mim e indagou: Já começou? — Ainda não me disse o que devo escrever, lembrei-lhe. Disse ela: O comêço, o senhor sabe sozinho; abre-se com os louvores ao Onipresente, e escreve-se: “Com a ajuda do Santo Nome, bendito seja”.
Ela endireitou-se, observou a letra e disse: Bonita, muito bonita! E agora, o que há de escrever? Escreva. “Aqui, na Cidade Santa de Jerusalém, possa ela ser reconstruída e estabelecida rápidamente, amém.” Quando falo, digo Jerusalém sem adicionar nada, porém numa carta é preciso mencionar a santidade de Jerusalém e juntar uma súplica por sua reconstrução, de modo que o leitor tome Jerusalém em seu coração e saiba que esta requer mercê, e rogue por ela. Agora, meu filho, escreva o dia, a secção da semana e o ano.
Depois que pus a data, acrescentou: Agora, meu filho, levante a mão e trace um lamed elevado. Traçou? Mostre-me como saiu. Não se pode afirmar que não esteja bem feito.
Em todo caso, seria bom prolongar o alto. Agora, meu filho, trace um caf ao lado, e depois do caf um bet e depois do bet um vav. Um vav eu disse, e agora vem um daled. Deixe-me ver como saiu Likhvod, “Respeitável”. Bonito, muito bonito. O destinatário da carta é na verdade digno de belo respeito. Agora escreva: “Ilustre rabino”. O quê, já escreveu? Sua mão é mais ligeira que meus pensamentos.
Antes que eu co-dene minhas idéias, já as lançou na escrita. Seu pai, Deus lhe ilumine o paraíso, não gastou em vão o dinheiro que pagou por seus estudos. Desculpe-me, meu filho, estou cansada. Vamos deixar para outro dia a redação desta carta.
Quando é que pode vir? — Amanhã?, perguntei. Ela respondeu: Amanhã? Quer vir amanhã? Que dia é amanhã? Véspera do Rosch Hodesch? A véspera da Lua Nova é uma ocasião apropriada para o caso. Bem, se amanhã lhe convém, que seja amanhã.
Notei que ela ficou triste. Pensei comigo mesmo: A véspera do Nôvo Mês, um dia em que a maioria costuma orar e suplicar, é o dia em que costumam peregrinar ao túmulo da Mãe Raquel, e não lhe dará certamente tempo para ocupar-se da carta. Disse-lhe: Se não tiver tempo amanhã, virei outro dia. — E por que não amanhã? Recordei-lhe: Amanhã é véspera da Lua Nova. — Meu filho, lembrou-me de minha grande desgraça, disse Tehila; é véspera do Rosch Hodesch e eu não posso ir ao túmulo de nossa Mãe Raquel. — Por que não? — Por que não?
Porque minhas pernas não me querem transportar. — Mas há carruagens, há ônibus. — Quando cheguei a Jerusalém, disse ela, não existiam ainda ônibus, nem mesmo carruagens, e costumávamos ir a pé, e uma vez que me habitei a ir a pé, não ficaria bem para mim alterar meu costume. O que foi que disse, que pretende vir amanhã? Se Deus quiser atender o meu desejo, prolongará o meu sôpro por mais um dia. Despedi-me, pois, parti e na manhã seguinte retornei.
Não sei se procedi bem em mostrar tanta pressa de voltar. É possível que, houvesse eu adiado a coisa, seus dias teriam sido prolongados.
Quando entrei, percebi nela imediatamente uma mudança. Sua face sempre resplandecera, mas naquele dia resplandecia duas vezes mais. E assim como o seu rosto, refulgia o seu quarto.
As pedras do piso estavam polidas e, como elas, todos os utensílios da casa. Sobre a pequena cama, desdobrava-se um alvo lençol, e as partes inferiores das paredes apresentavam-se caídas de cal azul, e em cima da mesa, via-se um jarro recoberto de pergaminho e, ao lado, um pouco de lacre de selar e uma vela. Quando havia caiado as paredes, quando havia polido o piso e todos os objetos da casa? A não ser que os anjos tivessem realizado o trabalho para ela, devia ter labutado a noite inteira.
Ela se ergueu pesadamente e disse num sussurro: Fêz bem em vir. Pensei que talvez tivesse esquecido e já pretendia sair para os meus afazeres. — Se precisa sair, não se prenda; virei mais tarde. — Preciso ir ratificar minha escritura, mas já que veio, sente-se; escrevamos primeiro e depois irei tratar da escritura.
Ela se levantou, estendeu a carta à minha frente, trouxe a tinta e a pena. Peguei a pena, mergulhei-a na tinta e fiquei à espera de que me dissesse o que escrever. Disse ela: Está preparado? Eu também estou preparada. E quando declarou: Eu também estou preparada, suas faces iluminaram-se com beatitude e um doce sorriso circundou-lhe os lábios. Tornei a umedecer a pena e fitei-a. Ela notou o fato e perguntou: Onde paramos? Paramos no "Respeitável e ilustre Rabino etcétera". Agora escreva o nome dele. Voltei a molhar a pena e aguardei até que expressasse o nome. Ela murmurou: Schra ga é o seu nome. Escreveu? Escrevi. Ela cerrou os olhos como se fôsse adormecer. Depois ergueu-se da cadeira, olhou para o que escrevera e murmurou de vôvo: Schraga é o seu nome; Schraga é o seu nome.
Tornou a sentar-se e emudeceu. Por fim despertou e falou: Eu lhe direi mais ou menos o que deve escrever. Interrompeu-se por mais alguns momentos, cerrou os olhos e disse: Vejo que terei de contar primeiro a história tôda, pois só assim poderá compreender o que aconteceu e saberá como escrever. É uma velha história, que aconteceu há muitos anos. Noventa e três anos atrás.
Ela apanhou sua bengala e apoiou nela a cabeça. Depois, suspendeu a cabeça e ficou olhando por alguns minutos como que admirada, como alguém que imagina estar a sós e de repente vê-se em companhia de um estranho. Tôda a sua tranquilidade desvaneceu-se e seu semblante revestiu-se de uma expressão de dor e cólera. Apalpou a bengala, largou-a, tornou a pegá-la e apoiou-se nela, passou a mão na testa, alisando-a até que as rugas desapareceram. Então, voltou a dizer: Se eu lhe contar a história tôda, será mais fácil escrever. O nome dele o senhor já escreveu. Schraga é o seu nome. Agora, vou lhe relatar tudo, desde o comêço.
Ela ergueu os olhos e olhou para um lado e para o outro. E como verificasse não haver ninguém mais à escuta, principiou e disse: Nesta época, tinha eu onze anos. E como sei qual era a minha idade então? Porque meu pai, de abençoada memória, costumava registrar nos seus livros da Torá todo varão que lhe nascia, inscrevendo também o nascimento das filhas.
Apanhe este Pentateuco e veja. Quando subi para Jerusalém, meus irmãos, repousem eles em paz, renunciaram a seu direito sobre os livros de meu pai e me deram o Humasch. O que foi que eu lhe disse? São coisas passadas. Coisas que aconteceram há noventa e três anos.
Mas lembro-me muito bem. Vou lhe contar tudo e compreenderá uma coisa depois da outra. Se estiver ouvindo, eu lhe contarei. Assenti com a cabeça e disse: Conte-me.
Ela repetiu: Pois bem, tinha eu onze anos. Certa noite, após as preces vespertinas, papai, descanse êle em paz, voltou da sinagoga e, com êle, vieram vários parentes e amigos nossos, entre os quais Petahia Mordehai, o pai de Schraga. Quando entraram, mamãe, a paz seja com ela, chamou-me e mandou que eu lavasse o rosto e pusesse um vestido de sábado; ela também pôs um vestido sabático, amarrou um lenço de sêda na cabeça e tomou-me pela mão, entrando em minha companhia na espaçosa sala em que meu pai se encontrava com seus convidados. O pai de Schraga olhou-me e comentou: A menina não é nada feia.
Papai afagou minha face e disse-me: Tehila, sabe quem falou com você? O pai de seu noivo lou com você. Mazal tov e boa sorte para você, minha filha, ta noite você foi dada em noivado e agora você é noiva. Toaos os convivas a uma só voz felicitaram-me, desejando-me parabéns e chamando-me noiva. Mamãe apoderou-se de mim e reconduziu-me ao seu quarto, receosa do Mau-Olhado, e beijo-me e disse-me: De hoje em diante, você é noiva de Schraga, e, s: Deus quiser, dentro de um ano, no dia em que o noivo atingir é idade de usar os filactérios, armaremos o dossel para ambos.
Eu conhecia Schraga, costumávamos brincar juntos de nozes e de esconde-esconde, até que ele cresceu e começou a estudar a Guemará. Uma vez noivos, eu o via todo sábado, quando vinha visitar papai e explanar-lhe tudo o que aprendera no curso da semana; e mamãe dava-me confeitos que eu lhe oferecia, enquanto papai me acariciava a face e mostrava a meu noivo um semblante todo iluminado.
Entrententes, iniciaram-se os preparativos para o casamento. Seu pai mandou compor-lhe os filactérios e meu pai lhe ofereceu o xale de orações e eu pordei-lhe uma bólsa para os filactérios e outra para o talit sabático. Quem foi que lhe fez a sacola para o xale e os filactérios da semana, não me recordo.
Um sábado, cérca de quatro semanas antes da data fixada para o enlace, Schraga não apareceu em casa de meu pai. De tarde, à hora da oração vespertina, papai perguntou na sinagoga por êle e soube que viajara. Para onde fôra?
Seu pai o levara em peregrinação a um rabi hassídico, para que êste lhe abençoasse a investidura dos filactérios e do xale. A alma de papai quase se desvaneceu com a notícia; não sabia que o pai de Schraga pertencesse à seita, que fôsse um hassid às escondidas, pois naquele tempo os hassidim ainda eram despreza-dos e perseguidos, e meu pai era um dos cabeças dos opositores, e considerava os beatos como se tivessem abjurado a Comunidade de Israel. No sábado à noite, após a bênção da havalda, papai rasgou o contrato de noivado e enviou os pedaços à casa dos pais de Schraga. Na térça-feira, Schraga e o pai voltaram de viagem e vieram à nossa casa. Meu pai pôs os dois para fora, invectivando-os. Schraga então saltou e jurou que jamais nos perdoaria a ofensa. E papai nunca se incomodou em pedir o perdão de Schraga, embora soubesse que, ao se anular um noivado, é preciso pedir perdão à parte ofendida.
E quando mamãe lhe implorava para que se desculpasse com Schraga, papai zombava dela e dizia: Não tenha médio, êle é da seita... Aos olhos de meu pai os hassidim eram tão desprezíveis, que não se importava em observar algo que merece o estrito cuidado de todos.
Tudo estava pronto para o casamento. Sacos de farinha, tonéis de mel abarrotavam a casa, e as confeitarias e doceiras já haviam sido contratadas para preparar os pães e os bolos. Em suma, tudo estava pronto para o casamento. Não faltava nada, exceto um noivo. Papai mandou chamar um casamento e arrumaram-me outro noivo, que me conduziu ao pálido nupcial.
O que aconteceu a Schraga não sei, pois meu pai pro.viu que em casa se mencionasse o nome de Schraga. Um dia, ouvi dizer que ele e toda a família de seu pai se havia. O lado para outra cidade, porque temiam por suas vidas, pois, o dia em que meu pai rompera o noivado, nunca mais haviam sido chamados à leitura da Torá, mesmo na celebração de Simhat Torá; e organizar um quórum para um serviço à parte não podiam, uma vez que meu pai, que era o chefe da comunidade, não permitia que se celebrassem ofícios fora das singogas estabelecidas; e se não fôssem para outra cidade que os chamasse à leitura da Torá, não poderiam perfazer seus anos.
Três anos após o meu matrimônio, tive um filho. Dois anos depois, outro. E, passados mais dois anos, dei à luz uma filha.
Os anos foram transcorrendo e pão havia em abundância. As crianças cresceram e iam bem, e eu e meu marido, descansele em paz, víamos isto e nos alegrávamos. Esqueci Schraga e esqueci que eu jamais recebera dele uma declaração de perdão.
Papai e mamãe se foram para o outro mundo. Antes de falecer, meu pai, de abençoada memória, legou s os negócios aos filhos e genros e recomendou-lhes que continuo sem pre juntos. Os negócios corriam bem e levávamos uma vida decente. Mantínhamos bons melamdim para os nossos filhos e uma governanta gentia para a nossa filha, pois naquele tempo as pessoas devotas conservavam-se à distância dos professores judeus, que eram tidos por ateus.
Estes melandim, meu marido os trazia de outras localidades, porque os da cidade tinham por obrigação aceitar qualquer pupilo, ainda que pouco conveniente, enquanto que o mestre que vinha de fora só dependia de quem o contratava e não era forçado a acolher todo e qualquer aluno. E como vinham sozinhos, costumavam comer à nossa mesa, aos sábados. Meu marido, que por causa dos excessos de ocupações não dispunha de tempo certo para o estudo da Torá, apreciava muito tais hóspedes, porque podia ouvir deles palavras da Torá. Eu e as crianças também os apreciávamos, devido às belas melodias que um deles cantava então à nossa mesa. E não sabíamos que o melamed era um beato hassídico e seus ensinamentos, devoções hassídicas e suas lindas melodias, toadas hassídicas, visto que, no restante, comportava-se como todo bom e temente filho de Israel. Certa vez, porém, numa noite de sabá, o mestre falou da Torá, cerrou os olhos e entoou um belo e agradável cântico, de tal modo que nossas almas se derreteram de tanta doçura. Meu marido perguntou ao melamed: Onde é que se adquire tamanha devoção a Deus? — Se sua exce나cia visitar o nosso rabi, sussurrou éle, receberá duas vêzes so e o dóbro. Alguns dias mais tarde, aconteceu que meu tarido passou pela cidade do rabi do melamed, e trouxe de alta novas práticas que eu jamais vira em casa de meu pai, e eu sabia que se tratava de práticas dos hassidim. E eu pensei em meu coração: Pai, quem removerá a poeira de seus olhos? Você mandou Schraga embora, por causa de seu hassidismo, e eis que o noivo que você me deu em lugar dêle procede da mesma maneira que Schraga. Se isto não adveio como expiação por um pecado, não sei por que aconteceu.
Meus irmãos e cunhados viram tudo isso e nada disseram. Pois os tempos haviam mudado e ninguém mais se envergonhava de parentes que fôssem beatos hassídicos, pois entrementes vieram de outras cidades genros de ricas famílias, os quais eram dados às práticas hassídicas e tinham mesmo estabelecido uma “casa” de orações hassídicas e viajavam abertamente para visitar seus rabis. Meu marido não fazia as suas devoções na casa dos hassidim, mas comportava-se como um hassid, educava os filhos nesta prática, e de tempos em tempos peregrinava ao seu rabi.
Um ano antes que o nosso primogênito se tornasse bar-mitzvá, a peste assolou a nossa cidade e muitos foram por ela atingidos, o Misericordioso nos livre. Não havia uma só casa onde alguém não estivesse doente. O mal também nos golpeou e o nosso filho mais velho caiu enférmo.
Afinal, Deus, bendito seja, apiedou-se dêle, mas não por muito tempo. Depois que se restabeleceu da doença, começou a estudar a lei dos filactérios na grande edição do Schulkhan Aruch. Vi isso e alegre-me que sua fé hassídica não houvesse prejudicado a sua Torá.
Um dia, nosso filho levantou-se cedo e foi à casa de estudos. Lá, encontrou um homem vestido de mortalha como um defunto. Mas o defunto não era defunto, Deus nos livre, porém um insano, Deus nos livre, que cometia atos muito estranhos. O menino ficou aterrorizado e desmaiou. Com dificuldade, fizeram-no voltar à vida. À vida, mas não a uma longa vida. A partir de então, foi-se apagando como uma vela em memória na prece de encerramento do Tom Kipur. E não lhe foi dado usar seus filactérios, pois rendeu a alma e faleceu.
Durante os sete dias de luto, fiquei sentada, pensando: Meu filho morreu no encerramento do schabat, após a havdalá, trinta dias antes de ser investido dos filactérios, e foi no encerramento do schabat, após a havdalá, trinta dias antes de eu me pôr com Schraga sob o dossel nupcial, que papai rasgou o contrato de noivado. Comparei as datas e constatei com um estremecimento que os dois infaustos eventos haviam ocorrido no mesmo dia e à mesma hora. E ainda que fósse mero acaso, era algo digno de meditação.
Dois anos mais tarde, o irmão déle chegou à idade de bar-mitzvá. Chegou e não chegou. Sucedeu que, em companhia de seus amigos, foi ao bosque de nossa cidade a fim de colher ramos para a festa de Schavuot. Enquanto se encontravam no bosque, ele os deixou e foi à casa do escriba para ver os filactérios que este lhe preparava, e nunca mais voltou. Estávamos certos de que os ciganos o haviam raptado, pois um bando de ciganos fôra visto nos arredores da cidade. Passados alguns dias, seu corpo foi encontrado no pântano existente na proximidade do bosque, e soubemos que a criança se perdera na floresta e, no caminho, caíra no pântano.
Quando nos levantamos de nosso luto, disse ao meu marido: O que nos resta? Resta-nos apenas uma menina pequena. Se não pedirmos perdão a Schraga, ela terá o mesmo fim que os irmãos.
Durante todos aquêles anos, nada ouviramos a respeito de Schraga, pois, desde que ele e sua família tinham deixado a nossa cidade, ninguém mais se lembrara deles e não sabíamos onde estavam. Disse meu marido: Schraga era um hassid de Rabi fulano, irei ver êste rabi e descobrirei onde está Schraga. Meu marido não era hassid, desde rabi; ao contrário, opunha-se a ele devido a uma disputa entre os rabis hassidicos. Tudo por causa de um schohet que um indicara e o outro dispensara. Durante a querela, um judeu foi morto, várias famílias arrancadas de seu lugar, vários baal-batim perderam sua propriedade e vários outros terminaram seus dias na prisão.
Meu marido viajou, pois, ao rabi. Mas, antes que alcançasse sua cidade, o rabi morreu, e seus filhos partilharam entre si os adeptos e a autoridade e cada qual foi para uma cidade diferente. Meu marido procurou um filho após outro e interrogou a todos sobre o paradeiro de Schraga, mas nenhum soube informar. Por fim, disseram-lhe: Se é de Schraga que está perguntando, Schraga estragou-se e tornou-se mitnagd. Mas onde estava não sabiam.
Quando alguém é hassid, é fácil encontrá-lo. Se não é hassid de um rabi, então é hassid de outro rabi. Mas um simples judeu, se a gente não sabe onde mora, como é possível descobri-lo?
Meu marido, descanse êle em paz, costumava viajar, e seus negócios o levavam a grande número de lugares. E onde quer que fôsse, indagava por Schraga. Por causa destas numerosas viagens, suas forças declinaram e começou a tossir sangue. Certa vez, partiu para um lugar qualquer, adoeceu e morreu.
Depois que lhe ergui a lápide sobre a sepultura, retornei à minha cidade e entrei nos negócios. Mesmo em vida de meu esposo, eu o ajudava em seus negócios, mas, após a sua morte, dediquei-me a eles com todas as minhas energias. E o Nome, louvado seja, duplicou minhas forças, a ponto das pessoas dizerem: Ela tem a força de um homem. Melhor seria se me fôsse dada inteligência em vez de força, mas o Senhor é um Deus conhecedor e não requer a opinião de Suas criaturas para que lhe digam o que é bom. Pensei comigo mesma: Tôda esta minha lida é em prol de minha filha, aumentarei minha fortuna para aumentar sua ventura.
Meus negócios aumentaram e se multiplicaram tanto que eu não tinha tempo para me ocupar de minha filha, a não ser nos sábados e nas festividades, e mesmo assim meio dia era gasto na sinagoga e outro meio dia em receber convidados. De qualquer maneira, minha filha não necessitava de mim, pois contratei-lhe professõras e ela ficava entretida em seus estudos e eu recebia muitos cumprimentos a seu propósito. E até os goim, que escarnecem de nós porque falamos uma língua que lhes parece de tartamudos, elogiavam minha filha que se expressava perfeitamente no idioma deles, como os melhores dentre éles.
De resto, as educadoras gentias gostavam muito de minha filha e convidavam-na às suas casas. Chamei os casamenteiros e eles me arrumaram um noivo renomado por seu saber na Torá e rabino ordenado. Mas nunca me foi concedida a graça de conduzi-los ao pálio, pois um mau espírito apossou-se de minha filha e ela endoideceu.
E agora, eis o que lhe peço, meu filho: Escreva a Schraga que eu lhe perdoei tódas as desgraças que me sobrevieram por causa dele, e escreva-lhe que ele também precisa perdoar-me, pois já fui punida o suficiente.
Permaneci sentado em silêncio, sem proferir palavra. Depois levei um dedo aos meus olhos e enxuguei minhas lágrimas. Perguntei então a Tehila: Por favor, diga-me, desde o dia em que seu pai rasgou o contrato de noivado, já transcorreram mais de noventa anos, acaso supõe que Schraga ainda esteja vivo?
E se estiver vivo, conhece o lugar onde se encontra? — Schraga não está vivo, Schraga morreu, disse Tehila. Faz trinta anos que morreu. E como sei eu do ano de seu falecimento? Bem, naquele ano, no sétimo dia de Adar, fui ao serviço vespertino; após a leitura da passagem dos Profetas, durante a prece em memória dos mortos, ouvi mencionar o nome de Schraga. Depois do serviço perguntei ao bedel da sinagoga: Quem é éste Schraga que foi evocado?
Ele respondeu-me: Fulano, filho de beltrano, seu parente, pediu-me que eu lembrasse o seu nome na oração. Fui à casa de fulano e ouvi o que ouvi.
Indaguei de Tehila: Se Schraga faleceu, como é que pretende remeter-lhe uma carta? — Deve estar convencido, retrucou-me, que por excesso de anos esta velha perdeu o juízo e que ela conta com os correios para entregar a carta a um morto. — Mas então, perguntei, o que pretende fazer?
Ela ergueu-se, tomou o jarro de sôbre a mesa, elevou-o e disse numa espécie de cântico: Pegarei a carta e a colocarei dentro do jarro, e pegarei o lacre do sinête e lacrarei o jarro, e levarei comigo o jarro e a carta.
Pensei de mim para mim: E se ela levar consigo o jarro e a carta, ainda assim não percebo como a carta há de chegar às mãos de Schraga. Olhei para ela e perguntei-lhe: Para onde levará o jarro com a carta? Tehila riu docemente e replicou em voz cantante: Para onde levarei o jarro? Levá-lo-ei à minha sepultura, à minha sepultura levarei o jarro e a carta. Lá, no Mundo Superior, conhecem Schraga e sabem onde ele se encontra. E fiéis são os mensageiros do Santíssimo, louvado seja, que farão chegar minha carta às suas mãos. E Tehila tornou a rir com doce riso, como que um riso de triunfo de uma criança que, por sua sagacidade, venceu a mais velhos. Depois descansou a cabeça, encarou-me com firmeza e disse: Agora que a coisa tôda está clara, pode pôr-se a escrever sózinho. E enquanto falava, voltou a descansar a cabeça na bengala.
Tomei da pena e escrevi. Depois que concluí a carta, Tehila alçou a cabeça e perguntou: Já terminou? Levantei-me e li-lhe, enquanto ela permanecia sentada, de olhos cerrados, como se houvesse tirado o caso da mente e não quisesse ouvir. Finda a leitura, reabriu os olhos e declarou: Está bem, meu filho, está bem. Expressou a minha idéia.
As coisas poderiam ser escritas de outra forma, mas ainda assim, tal como escreveu, tudo está bastante claro. Agora, meu filho, dê-me a pena que assinarei meu nome na carta e porei a carta no jarro; depois disso, irei ratificar minha escritura.
Embebi a pena na tinta e lhe estendi. Ela pegou a pena e assinou o nome. A seguir correu a pena sobre algumas letras, para que se tornassem mais nítidas. Então dobrou a carta, meteu-a dentro do jarro, ao qual envolveu num pedaço de pergaminho. Depois acendeu a vela, pegou no lacre de sinete, segurou-o diante da vela até amolecê-lo e então lacrou o jarro em tôda volta.
Aí levantou-se e foi até a cama. Chegando junto da cama, suspendeu a coberta e guardou o jarro sob o travesseiro. Então fitou-me com um olhar meigo e disse-me ternamente: Devo apressar-me em ratificar a escritura. Abençoado seja, meu filho, por não ter-se poupado o trabalho para ajudar-me. Doravante, não mais o incomodarei. Enquanto falava, endireitou a coberta, apanhou a bengala e diri giu-se à porta, e alçando-se um pouco, pôs a bôca sobre a mezuzá no batente da porta e esperou que eu saísse. Ela saiu também, trancou a porta e partiu apressadamente. Saí correndo e fui atrás dela.
Durante o trajeto, olhava com meiguice todo lugar por onde passávamos e tôda pessoa com quem cruzávamos. De repente parou e disse: Diga-me, meu filho, como é possível abandonar lugares tão santos como êstes, e judeus tão dignos como êstes? Eu ainda não percebia aonde ela pretendia chegar.
Quando alcançamos um cruzamento, estacou e me disse schalom. Disse-lhe: Irei com a senhora. Demos mais alguns passos e ela tornou a estacar e disse: Já cheguei ao meu lugar. Schalom. Mas, vendo que eu estava decidido a acompanhá-la, nada mais acrescentou.
Subiu os largos degraus que levam ao pátio do escritório da Sociedade Funerária. Entrou e eu entrei atrás.
Penetramos no edifício da Sociedade Funerária, administração dos vivos e dos mortos. Dois escreventes estavam sentados, com os registros abertos à sua frente e as penas na mãos, e escreviam enquanto tomavam pequenos copos de café prêto. Quando viram Tehila, depuseram as penas, ergueram-se respeitosamente e saudaram-na: Bem-vinda seja, e apressaram-se em lhe oferecer uma cadeira.
Indagou o mais velho. O que a traz aqui? — Vim ratificar a escritura, redarguiu Tehila. Veio ratificar a escritura, disse ele, e nós que estamos certos que chegou a hora de cancelá-la. — O que está dizendo?, exclamou Tehila, assustada. Pois a senhora certamente já se retirou da Sociedade dos Schtarbes (dos Morredouros). Sorrindo do próprio gracejo, dirigiu-se a mim e disse: Tehila, viva ela longamente e acumule numerosos dias, costuma vir aqui todos os anos a fim de renovar a escritura de venda de seu local no Monte das Oliveiras. Foi assim no ano passado, há dois anos e há três anos, há dez anos, há vinte e há trinta anos, e assim continuará procedendo até a vinda do Redentor.
— Que venha o Redentor, exclamou Tehila, que venha o Redentor! Que se apresse e venha. Mas eu não os incomodarei mais. O escrevente perguntou então, admirado: Será que a senhora vai para uma kvutzá, como estas môças a quem chamam halutzot? — Não vou para kvutzá nenhuma, contestou Tehila, vou para o meu próprio lugar. — Pretende voltar para o estrangeiro?, perguntou o escrevente. Para o estrangeiro não pretendo voltar, disse Tehila. Vou retornar ao lugar de onde vim, como está escrito: “E ao pó háis de voltar”. Sorrindo, o escrevente observou: Na, na, acha mesmo que a Sagrada Sociedade Funerária não tem o que fazer? Ouça o meu conselho e espere mais vinte ou trinta anos. Para que tanta pressa?
Ela disse num murmúrio: Já encomendei as purificadoras e as lavadoras, e não seria de boa praxe brincar com essas boas mulheres. O rosto do escrevente ensombreceu-se e percebia-se que ficara triste. Depois disse: Como é bom para nós vê-la aqui conosco, pois, cada vez que a vemos, temos à nossa frente um exemplo de longa vida, e agora que pretende abandonar-nos, não queira Deus, é como se nos privasse do exemplo. — Se ainda me restam anos de vida, disse Tehila, eu os dou ao senhor e a todos que almejam pela vida. Eis a escritura, assine-a.
Depois que o escrevente firmou o térmo de venda, Tehila o tomou e o meteu na roupa, dizendo: Daqui por diante, não mais os incomodarei. Que o Santo Nome esteja com vocês, caros judeus. Agora irei ao meu lugar. Levantou-se, foi até a porta, alçou a bôca à altura da mezuzá, beijou-a e saiu.
Vendo que eu continuava a acompanhá-la, parou e ordenou-me: Volte a seus afazeres, meu filho. Disse-lhe eu: Quando me falou que ia ratificar a escritura, eu tinha certeza de que se referia à escritura de sua casa e no fim. Ela interrompeu minhas palavras e completou: E no fim fui ratificar a escritura de minha morada eterna. Deus queira que eu não tenha de residir lá por muito tempo e que eu ressuscite com todos os mortos de Israel. Schalom, meu filho. Estou com pressa, porque as lavadoras e as purificadoras certamente já estão me esperando. Quedei-me ali em silêncio, e ela se foi, desaparecendo por entre as casas e as vielas.
Na manhã seguinte, fui à Cidade Velha para ver como Tehila estava passando. Encontrou-me aquele sábio, cuja casa Tehila me havia indicado. Ele me deteve e arrastou-me a uma longa conversa.
Quando o deixei, quis acompanhar-me. Disse-lhe: Não vou para casa, vou à casa de Tehila. — Possa o senhor ir daqui a cento e vinte anos, replicou-me. Percebeu minha perplexidade e acrescentou: Continue vivendo. Aquela santa nos abandonou.
Despedi-me e fui embora e, enquanto caminhava, refletia: Tehila morreu e foi-se, morreu e foi-se. Assim caminhando, encontrei-me diante da casa de Tehila. Abri a porta de seu aposento e entrei.
A quietude do repouso reinava no quarto, como num quarto de orações após as preces. E sobre o chão restavam algumas gôtas de água, da água com que haviam purificado o corpo de Tehila.
(1) Discurso lido por Agnon no banquete oferecido pelo Rei Gustavo Adolfo da Suécia aos laureados do Prêmio Nobel.
(3) Mosché Schamir, “A Mochila Rasgada”, em Iovel Schai (Volume do Jubileu de Agnon), Universidade de Bar-Ilan, p. 81.
(4) Colin Wilson, The Outsider, Londres, 1956.
Dr. Baruch Kurzweill, professor de Literatura Hebraica e Mundial na Universidade de Bar-Ilan, Ramat Gan, é importante crítico literário e ensaída de Israel. O ensaio aqui publicado é o capítulo que conclui sua obra, Massot al Sipurei S. Y. Agnon (Ensaios sóbre as Estórias de Sch. I. Agnon, Schocken, Tel Aviv).